
Recitatif é o único conto da luminosa literatura de Toni Morrison. A escritora estadunidense, primeira mulher negra a receber o Nobel de Literatura, pautou toda a sua obra ensaística e romanesca em torno das questões de raça e gênero. Recitatif segue a mesma pauta. Nas palavras da própria autora, trata-se de “um experimento de remoção de todos os códigos raciais de uma narrativa sobre duas personagens de raças diferentes para quem a identidade racial é crucial”.
As protagonistas do conto são as pobres meninas Twyla e Roberta, que por quatro meses conviveram em um abrigo estatal. Uma é negra, a outra é branca. O texto salta da infância para a vida adulta e narra os efêmeros (e por vezes perturbadores) reencontros dessas mulheres. Mas o detalhe crucial permanece oculto da primeira à última linha: nunca sabemos (ou saberemos) qual é negra e qual é branca.
Eis aqui o brilhante enigma deste breve livro: não há meios de decifrar esse segredo. Ou há? Morrison, não por acaso, sublinhou este conto como um experimento. Como se tivesse elaborado o texto em um laboratório, cuidando de cada minúcia com extrema acuidade, montou o quebra-cabeça perfeito. E a cobaia desse experimento é você, o leitor.
Motivos para ler:
1- Toni Morrison (1931-2019) já mostrou suas credenciais absolutamente diferenciadas com o seu espetacular romance de estreia, O olho mais azul (1970). A partir daí, ergueu uma carreira literária extremamente sólida em paralelo com a sua profícua vida acadêmica. Venceu o Prêmio Pulitzer com o inigualável Amada (1987) e subiu aos céus dos imortais ao receber o Nobel de 1993;
2- A edição recém traduzida para o português traz um posfácio imperdível de Zadie Smith. Nele, a articulista pontua de forma fascinante os elementos fundamentais do conto. O destaque fica para a abordagem de Maggie, uma personagem secundária que parece não ostentar grandes importâncias na história, mas que reaparece na última linha do conto de forma comovente. Zadie conseguiu demonstrar que Morrison, de forma muito sutil, valeu-se da figura de Maggie para penetrar ainda mais fundo na compreensão da triste desumanização que é imposta a algumas “categorias” de seres humanos;
3– Recitatif é um conto perfeito, cuidadosamente confeccionado por uma das melhores escritoras de sempre. Nada menos do que isso.



Mas que interessante isso de não saber qual é qual personagem.
Sem dúvida lerei, obrigado.
Maravilhoso texto, para uma ótima leitura,
Boa semana a todos
Um conto bem escrito e que nos mostrao quanto às vezes nos apegamos a estereótipos.
Estimado Dr. Rafael, está aqui uma indicação iluminada para refletirmos neste fim de ano. Muitas atrocidades foram cometidas nos últimos tempos e atualmente alguns paspalhos promovem o racismo como meio de vida. Obrigado pela recomendação