
É comum que a imagem de uma pessoa idosa sentada, com olhar distante, diante de uma TV ligada em um lar de longa permanência ainda evoque tristeza e solidão. Esse estigma pesa sobre a decisão de se mudar ou de transferir um familiar para um residencial, mesmo quando a permanência em casa já se tornou inviável.
Fragilidade física, risco de quedas, alimentação inadequada e a falta de cuidados especializados são situações recorrentes, especialmente quando filhos e netos já não conseguem mais oferecer o suporte necessário.
“O problema é que ainda se associa o residencial ao abandono, ao desprezo, aos maus-tratos. Esse preconceito é cultural. As primeiras instituições acolhiam quem não tinha família, e os casos de violência contra idosos, muitas vezes fruto do despreparo dos profissionais, só reforçam esse medo”, explica a enfermeira Karim Barros, proprietária do Barros Residencial Sênior. “Mas quando a instituição é comprometida com a saúde e o bem-estar dos residentes, eles percebem que estão sendo cuidados e criam vínculos afetivos com a equipe”, completa.
Outro dilema recorrente é o convívio entre idosos com o cognitivo preservado e aqueles com demência. Em residenciais menores, nem sempre é possível fazer uma separação. Ainda assim, Karim relata que, na prática, a convivência costuma ser harmônica. “Os mais lúcidos acabam, muitas vezes, ajudando os mais frágeis. A chave é um ambiente alegre e acolhedor”, afirma. Ela destaca que a filosofia do lugar começa no gestor: “Sempre levei isso muito a sério, e meus colaboradores adotam a mesma postura. Promovemos atividades variadas: apresentações musicais com repertório do tempo deles, bingos, exercícios físicos e pintura. Tudo isso contribui para o bom humor e a motricidade.”
Para preservar a rotina da casa, Karim sugere horários de visita, evitando interferências nas atividades. Mas a visitação é sempre bem-vinda quando solicitada. Animais de estimação dos residentes também são autorizados a participar das visitas. A própria Karim costuma levar sua cachorrinha Juju, que anima o ambiente e provoca sorrisos.
O psiquiatra Décio Reimão compartilha uma lembrança pessoal para refletir sobre o tema: “Eu morava com meus pais na Rua Castro Alves, e quando minha avó ficou viúva, ela veio morar conosco. Era algo natural naquela época. Sempre havia alguém na casa para ajudar. Hoje, tudo mudou: as pessoas vivem em apartamentos pequenos, trabalham fora o dia todo. A medicina avançou e as pessoas vivem mais. Mas quando o idoso fica sozinho e não há quem cuide, ou não há recursos para contratar cuidadores, é preciso buscar uma solução. Existem instituições ruins, sim, mas também há muitas que oferecem cuidado, convivência e qualidade de vida.”
A culpa dos filhos e netos também costuma pesar na decisão. “Antigamente, cuidado não era profissão. As famílias eram grandes, alguém sempre podia cuidar. Hoje, os filhos se casam, mudam, têm outros compromissos. E deixar um idoso sozinho também pode ser cruel: ele se isola, se entristece, adoece. É fundamental conversar com franqueza, visitar as instituições, fazer um período de adaptação. Muitos se surpreendem positivamente. Há idosos que percebem que os filhos estão sempre ocupados e resolvem por eles mesmo buscar um novo espaço para viver entre pessoas da mesma idade e com interesses em comum”, conclui Décio.



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