
Uma polêmica colocou frente a frente a música popular brasileira e o rock alternativo internacional. Gilberto Gil e Chico Buarque notificaram a artista argentina Paz Lenchantin, ex-baixista do Pixies, por suposto plágio da canção Cálice, composta em 1973.
A controvérsia surgiu após o lançamento de Hang Tough, nova faixa de Paz divulgada nas redes sociais. A semelhança entre as duas músicas foi percebida de imediato: a melodia é praticamente idêntica à da obra de Chico e Gil, criada em plena ditadura militar e consagrada como um hino de resistência. Enquanto Cálice atravessou décadas como símbolo cultural, Hang Tough apareceu em 2025, sem qualquer referência à autoria original.
Em sua versão, Paz canta em inglês, com arranjos típicos do rock alternativo, mas a estrutura melódica é a mesma da clássica composição brasileira. A artista, que já integrou bandas como A Perfect Circle, Zwan e principalmente os Pixies, nunca havia enfrentado acusações semelhantes. Por isso, a notícia repercutiu com surpresa entre fãs e críticos, ganhando manchetes na América Latina e nos Estados Unidos.
Gil e Chico decidiram acionar advogados e enviar notificação formal à cantora, pedindo esclarecimentos e proteção à obra. Segundo pessoas próximas, a atitude não nasce de ressentimento, mas da necessidade de preservar o legado histórico de Cálice. A canção, marcada pelo jogo de palavras entre “cale-se” e o cálice bíblico, já foi regravada por diversos intérpretes, sempre com os devidos créditos.
Lenchantin ainda não comentou o caso, nem mesmo em suas redes sociais, que permanecem postando outras questões como se nada estivesse acontecendo. Sua postagem original com trechos de Hang Tough segue no ar, agora dominada por comentários de brasileiros que apontam a semelhança.
Comparação
Vídeos comparativos viralizaram nas redes, deixando evidente a identidade melódica. Para alguns, bastaria reconhecer inspiração e dar crédito aos autores; para outros, trata-se de plágio claro.
Especialistas destacam que situações assim geralmente terminam em acordos extrajudiciais, com inclusão de créditos, divisão de royalties e, em alguns casos, retratação pública. O episódio, no entanto, vai além das questões legais: expõe a força da música brasileira e mostra como sua influência ecoa mesmo em artistas de outras culturas.
Seja qual for o desfecho, o caso recolocou a música Cálice no centro do debate cultural contemporâneo, quase meio século após sua criação. E talvez este seja o maior triunfo da canção: resistir ao tempo, renascer em novos contextos e reafirmar a potência da criação musical dos verdadeiros gênios Chico Buarque e Gilberto Gil.
‘Cálice’: genial e atemporal
Cálice tem um peso histórico difícil de ser ignorado. Escrita em 1973, durante um dos períodos mais duros da ditadura militar, a canção foi censurada logo de início e só pôde ser apresentada oficialmente anos mais tarde. O jogo de palavras entre o verbo “cale-se” e o cálice bíblico do sofrimento deu à música um caráter enigmático, mas suficientemente claro para driblar a censura e, ao mesmo tempo, ser compreendido pelo público.
Na voz de Milton Nascimento, a obra ganhou sua versão mais emblemática, transformando-se em símbolo de resistência política e cultural. Desde então, tornou-se um marco da MPB, regravada por diferentes gerações de intérpretes. Não por acaso, seu refrão insistente ecoa ainda hoje como uma lembrança da luta pela liberdade de expressão. É justamente essa carga simbólica que torna o caso com Paz Lenchantin tão delicado: não se trata apenas de uma melodia, mas de um patrimônio cultural e histórico do Brasil.
Gil e Chico decidiram acionar advogados e enviar notificação formal à cantora, pedindo esclarecimentos e proteção à obra. Segundo pessoas próximas, a atitude não nasce de ressentimento, mas da necessidade de preservar o legado histórico da música.
A canção, marcada pelo jogo de palavras entre “cale-se” e o cálice bíblico, já foi regravada por diversos intérpretes,. Mas sempre com os devidos créditos.



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