
“Quem um dia irá dizer que existe razão para as coisas vindas do coração?”. A frase do eterno poeta Renato Russo ressoa aos meus ouvidos quando penso na história de vida de uma caker designer de mãos cheias que também se transformou em uma professora de gastronomia com pós-graduação em confeitaria. Eu digo que tem gente que não brinca de sonhar. Ainda mais quando o sonho tem nome, sobrenome e é alimentado ano, após ano, com muito amor. Continue esta leitura que você vai entender lá na frente.
Antes, anote este nome: Elizângela Aldá. Você ainda vai ouvir falar muito sobre ela. Eu aposto demais nas minhas intuições, assim como acreditei no talento da Tania Passos, que criou o Morango do Amor quando poucos a conheciam. Mas voltamos pra Eli Aldá…
QUEM DISSE QUE TUDO É FÁCIL?
Olhando para a Elizângela de hoje, ninguém faz ideia do caminho que ela percorreu pra inaugurar, na semana passada, a tão desejada Escola & Confeitaria na Rua Luiz de Camões, 198, no bairro da Encruzilhada, em Santos.
“Eu comecei a empreender no ramo da confeitaria por necessidade. Estava passando uma situação financeira difícil. Eu contava com a ajuda do meu sogro e do meu pai todos os meses. Isso aconteceu depois que meu marido – que era representante comercial e foi o primeiro a trazer a Smirnoff Ice para a Baixada Santista – decidiu largar o emprego. Ele não aguentava mais e resolvemos abrir um comércio de petiscos. Fechamos um ano depois quando justamente meu filho caçula, Heitor, nasceu.”, explica a confeiteira.
Eli conta que o marido decidiu parar por dois meses até voltar a procurar um emprego. Mas a espera foi além do previsto. Foram dois anos desempregado e o lastro financeiro, programado para um por cento deste tempo, desapareceu. A oportunidade só chegou passados esses mais de vinte meses mas não cobria as despesas da casa. “Foi quando ele olhou pra mim e disse: ‘Eli você vai ter que fazer alguma coisa para me ajudar.’ A única coisa que lembrei foi o pão de mel recheado que eu sabia fazer muito bem.”, conta. A ideia virou a solução do problema. De 30 pães de mel, ela passou a fabricar 300 por semana.
Surpreendia por um câncer

Em 2018, Elizângela estava no auge da profissão: dava entrevistas para veículos de imprensa, canais de televisão, jornais impressos, foi convidada pela Celebrate – empresa do Rio de Janeiro – pra fazer uma capacitação de cake designer e embarcou sozinha para ficar dez dias na sede da empresa carioca. Voltou dando aulas aqui na região pela empresa, mas começou a sentir uma dor na mama esquerda.
“Eu coloquei a mão e senti um caroço. Eu fiz uma ultrassonografia às pressas, descobri dois nódulos, fui submetida a uma biópsia, eles aumentaram numa velocidade absurda e passei a ser acompanhada por um mastologista. Com o diagnóstico do câncer, comecei a fazer quimioterapia e depois a mastectomia total da mama esquerda, às pressas, pelo tamanho do tumor. Eu sobrevivi, graças à Deus e a um milagre, e até hoje convivo sem a mama esquerda.”
Elizângela precisou parar tudo e ficar um ano em casa. Mas quem disse que o sonho havia acabado? Enquanto o coração pulsa, há vida, há esperança. Eu te convido a ler, novamente, a frase do início desta coluna. Após a recuperação, ela voltou a empreender e comprou alguns materiais para fabricar “papel de arroz” usado na decoração de bolos de festas. Foi apenas uma retomada. Eli fez pós-graduação em Confeitaria e Panificação, depois pós-graduação em Docência Gastronômica. Tudo para se aperfeiçoar e entregar o melhor conhecimento às alunas.
“A confeitaria fez eu ser quem eu sou hoje. Deus sempre fez milagres na minha vida. Hoje sou dona da minha própria e tão sonhada escola de confeitaria pra transformar a vida de outras mulheres também. Quando eu comecei a reformar essa casa, eu não tinha um plano de negócios pronto, eu simplesmente comecei e foi um ato de fé. Hoje ela está linda, montada e de portas abertas para quem quer aumentar sua renda familiar”, conta emocionada.

Fisgada pelo acaso
Eli Aldá conta que começou a ‘pegar gosto’ pelo negócio. “Eu já adorava fazer docinhos nos aniversários de família e com o sucesso das vendas dos pãezinhos de mel, eu fiquei com mais vontade de aprender outras receitas e técnicas. Eu já tinha feito muitos biscuits e decidi voltar a estudar modelagem, mas comestível. Eu já era uma apaixonada por pasta americana mesmo. Então, fui me inscrevendo em cursos pra entender melhor as técnicas. A minha vó materna tinha livros antigos de bolos de casamento e eu amava, quando criança, folheá-los como se fossem gibis. Depois de tantos anos, este amor começou a aflorar ainda mais.”, relembra.
E como nunca é tarde pra correr atrás dos sonhos, Eli também voltou às tradicionais salas de aula pra concluir o Ensino Médio e depois entrou no curso técnico de Nutrição e Dietética. “Quando eu terminei o curso técnico, eu já prestei o ENEM e consegui uma bolsa de 100% no curso de Gastronomia da Universidade Católica de Santos. Antes mesmo de me formar, eu já estava dando aulas à convite de uma empresa. Como eu fazia muitos cursos na Proplastik, a coordenadora de lá conhecia meu trabalho e me indicou. Em pouco tempo eu já estava dando aula para outras empresas. Uma delas estou até hoje – a Mavalério, que é uma marca brasileira especializada em produtos para confeitaria.”, explica.



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