
Rumores do mundo literário sopravam pelos corredores das livrarias, cochichavam pelas bordas das bibliotecas, suspiravam nos entremeios musicais: Patti Smith lançará um novo livro. A confirmação veio da própria artista, que prometeu o título para 2025. Profecia concretizada: Pão dos anjos, competentemente traduzido por Camila Von Holdefer, finalmente aporta em terras brasileiras em 2026 e já faz figura entre os mais vendidos no país.
Falar de Patti Smith, antes de qualquer coisa – e há muita coisa a ser dita -, é falar de história. Sua precoce vocação artística, impulsionada por uma criatividade curiosa fortemente ancorada em Bob Dylan e Rimbaud, levou-a a produzir letras musicais que viriam a se tornar clássicos incontornáveis. Ao lado de Robert Mapplethorpe, deu ampla vazão ao seu espectro musical, o que resultou no álbum Horses, até hoje listado como um dos melhores discos do rock. Paralelamente à carreira musical e cheia de boas referências literárias, Patti começou a se inclinar para aquilo que, confessadamente, nasceu para ser: uma escritora. A literatura, para nossa sorte, ganhou a caneta de uma mulher sem igual.
O mosaico literário de Patti é todo pautado em textos não-ficcionais: pensamentos, elucubrações várias, sonhos também, e autobiografia. Pão dos anjos é o seu livro mais íntimo, entregando, como assinala seu subtítulo, a história completa de sua vida. Às vésperas dos oitenta anos, Patti não só expõe as vicissitudes do que viveu, mas, como sempre, faz muito mais: constrói um campo místico que envolve o leitor em reflexões ora aterradoras, ora comoventes. Dirá, já nos estertores do livro: “Sobre o que vou escrever, e o que vou prometer? Prometo ser boa.” Com o perdão da ousadia, completaríamos essa sentença: Patti, ao repartir seu pão dos anjos conosco, faz de nós, leitores, promessas de boas pessoas.
Motivos para ler:
1- Patti Smith é uma artista completa, na melhor concepção que se pode ter de arte. Viveu com máxima intensidade a viragem cultural dos anos 1970/80 e fusionou poesia com rock, impulsionando assim sua influente e bem-sucedida carreira musical. Porém, aquilo que consideramos sua maior virtude aflorou pouco depois: a veia de escritora. Seu livro de estreia, Só Garotos, foi condecorado com o valoroso prêmio National Book Award. Daí em diante seguiu publicando livros maravilhosos. Enxergamos Patti como uma espécie de farol humanístico: é preciso lê-la, é preciso ouvi-la, é preciso compreendê-la;
2- Permito-me aqui expor um tom mais pessoal, não muito usual nesta coluna. O momento em que fui à livraria, vi esse título na bancada e o peguei em mãos foi diferente de qualquer coisa que já experimentei. Claro que nós, leitores, ansiamos por lançamentos de quem admiramos e ficamos felizes com a chegada de novos livros. Mas aqui foi noutro nível. Que coisa rara de sentir. Que coisa boa;
3– Patti Smith integra o cabedal de mulheres fortes que escrevem como ninguém. Sem embargo das suas profundas e excelentes referências literárias, é uma escritora guiada muito mais por uma espécie de erudição intuitiva do que por linhas acadêmicas. Uma viajante que se senta em cafés para escrever, que escreve em luto sobre dor, esperança e gratidão. Vida longa, Patti Smith.



Magnífica coluna estimado Dr. Rafael. Creio que estamos precisando desse tipo de exemplo, achei muito valiosa a sua referência sobre o sentimento pessoal de ter em mãos o livro, isso é muito especial, continue. Vi um matéria sobre ela e destaco o seguinte: “ Vestida com roupas masculinas, ela representa a independência e a sabedoria de saber viver com pouco”. De outro lado, temos figuras públicas usando um apartamento no pulso: https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2025/04/22/entre-toga-e-grife-como-ministros-do-stf-usam-a-moda-para-comunicar-poder.amp.htm
Minha sugestão, trocar toda essa PORRA de “direito” por literatura de verdade, quem sabe assim tenhamos um pouco mais de dignidade no trato da coisa pública.
Muito bom texto
Excelente resenha, gerou muito meu interesse. Grato
Reafirmo mais uma vez, que difícil é ser sua seguidora, Dr. Rafael. Mais uma para a fila dos que lerei antes de morrer. Grata!
Boa indicação de leitura com uma história de vida muito interessante.