
Leitores de todos os cantos do Brasil já marcaram o dia 19.05.2026 em suas agendas; afinal, poderá ser uma data histórica para a nossa literatura. É que Ana Paula, com o seu romance Assim na terra como embaixo dela, figura entre os seis finalistas do prêmio britânico International Booker Prize, um dos maiores galardões literários do mundo. Conseguir ingressar nessa lista final já é um feito enorme (somente Ana Paula e Itamar Vieira Júnior (2024) chegaram à finalíssima representando este país); ver uma escritora brasileira vencer pela primeira vez seria ouro sobre o azul. Vale a torcida de todos.
Em curta narrativa (143 páginas), Ana apresenta uma colônia penal em vias de desativação. Poucos presos restam nesta esquecida penitenciária chefiada por Melquíades, um diretor que começa a dar mostras de um sadismo meio enlouquecido. A autora, de forma intrigante, pouco a pouco abre pequenas frestas do que aconteceu no interior e no exterior dos muros da colônia. Uma descoberta macabra revela os horrores de tempos mais antigos ocorridos nesse maldito local. Diante de tamanho desamparo e da absoluta falta de institucionalização desse órgão estatal, os presos remanescentes arquitetam saídas possíveis: uma transferência legal para outro estabelecimento prisional; planos de fuga arriscados ou, se tudo for levado às últimas consequências, retaliações mais brutais contra os agentes penitenciários.
O terço final do livro ganha uma proporção inimaginável com a chegada de um oficial de justiça na colônia. De forma genial, a história é subvertida ao limite do irrazoável e o seu encaminhamento final é notável. Se o Booker Prize finalmente vier para o Brasil, estará seguramente em ótimas mãos.
Motivos para ler:
1- A trajetória de Ana Paula Maia é um bocado diferente daquela normalmente traçada pelos escritores em geral. Nada de formação acadêmica especializada (Letras, Sociologia e afins). Fã de filmes de horror desde sempre, essa influência foi determinante para forjar seu estilo literário. Foi baterista de uma banda de punk rock na adolescência, mas deixou as baquetas de lado para ler, ler muito, ler tudo. Com alguns romances na bagagem, Ana Paula pode agora alcançar a supina consagração se – torçamos! – vencer o Booker Prize;
2- O romance é muito cinematográfico. A leitura penetra pelos olhos, chega ao cérebro e instantaneamente enxergamos a colônia em meio ao deserto com seus personagens e todo o sinistro enredo. Se alguém tiver o telefone do Tarantino, ligue para ele e sugira a leitura do livro. Que filme incrível (nas mãos de um excelente diretor) esse livro daria;
3- A história, por si só, já atinge altos níveis de excelência. Mas uma leitura atenta sempre traz referências interessantes que tornam a experiência ainda mais rica. Ana Paula trabalha muito bem questões relacionadas ao exercício do poder (a síndrome do pequeno poder, a eterna lição de quem o detém tenderá a abusar dele) e à corrosão moral de quem vive dentro de um sistema precário, desarticulado e entregue à própria sorte.



Muito bom, aprovado…o sr está apto
A vida pode ser mesmo muito dura pra certas pessoas.
Grato pela resenha hein
Uma boa obra no qual nos mostra uma realidade sombria atrás das grades.
Estimado Dr. Rafael fico extremamente satisfeito, quiçá aliviado, em ver nessa coluna o que sempre me cativou nesta inestimável coluna e espaço para reflexões da nossa combalida sociedade brasileira, para isso a literatura é essencial. Então o que temos aqui, uma sugestão assaz portentosa para realmente perceber o declive civilizatório que o nosso Congresso Nacional nos propicia. Aproveitando o título, creio que esta espelunca deveria estar embaixo da terra, bem enterrada, junto com toda a fartura em gastos públicos desnecessários, corrupção e anedotas carnavalescas travestidas de mentiras na forma da lei. E qual a razão da exata sincronicidade entre a literatura e os fatos?! Essa avalanche grotesca que o podre Congresso desembocou na legislação, um emaranhado de contradições grosseiras sob os auspícios de uma eleição a vir que é mais torta ainda. Então é isso, apesar da ficção, é possível que ainda hoje tenhamos atrocidades ainda piores, desta forma, e disso que precisamos, literatura séria para tentarmos alguma mudança, mas infelizmente está difícil, creio que aqui nesta coluna temos uma das últimas trincheiras civilizatórias, um abraço.
Já disse que gosto muito da forma como você escreve suas resenhas, Rafael? A obra está nos “próximos livros a ler” graças à sua contribuição de divulgação. ‘Esperançando’ daqui que ela ganhe esse tão estimado prêmio da literatura.
Excelente resenha, Dr. Rafael! Sigo na torcida pela vitória da autora do Booker Prize.
Uma quantidade significativa de paralelos são possíveis a partir dessa leitura…
Campos de concentração, “Na Colônia Penal” de Kafka, o massacre em Carandiru e a necropolítica.
Leitura curtinha. Direta e potente. Muito visual também.
Concordo muito contigo no argumento de que a leitura da estória por si, já é muito boa. As reflexões sobre, a tornam ainda mais vigorosa.
Obrigada pela sugestão.