
Não sei qual a sua idade, mas sou do tempo em que, ao terminar o Ensino Médio (antes conhecido como Colegial), você era pressionado a enfrentar os vestibulares e ingressar em um curso universitário. Era um padrão coletivo, como se só a faculdade fosse um passaporte para uma vida próspera. Quero deixar claro que sou a maior incentivadora dos estudos, de ter um ou mais diplomas nas mãos e, portanto, da Universidade. Diga-se de passagem, eu estimulo e apoio o meu filho que vai encarar uma bateria de vestibulares em busca de um sonho. A reflexão que quero provocar vai além da difícil decisão de escolher uma profissão assim que se deixa os bancos escolares e é, também, baseada em números. Vamos lá… Há alguns anos, a juventude vem quebrando um tabu e mostrando que é possível, além de uma faculdade, ser dona do próprio negócio. De acordo com o Sebrae, o Brasil tem quase 5 milhões de empreendedores jovens entre 18 e 29 anos e quer impulsionar ainda mais este movimento. Afinal, empreender com consciência, gestão, disciplina, propósito e foco também pode gerar conquistas financeiras.
Foi o brigadeiro que transformou a vida de uma jovem de São Vicente. Maria Fernanda Nicacio começou a empreender, por acaso, aos 16 anos de idade. “Eu queria ter meu próprio dinheiro e não depender dos meus pais, principalmente aos finais de semana, pra sair, tomar um sorvete, ir ao cinema. Aí pensei: O que eu posso fazer que me traga dinheiro rápido, seja fácil e eu saiba fazer? Foi quando pensei no brigadeiro. Afinal, sempre via minha mãe e minha avó na cozinha fazendo doces para as festas da família”.
Maria começou produzindo os brigadeiros tradicionais e os beijinhos. Antes de seguir com a história, preciso fazer uma observação: não sei você, mas eu não acredito em coincidências e ou acaso. Acho que pra tudo há um propósito. Pois bem, uma semana depois de começar a fazer e a vender os brigadeiros para amigos e conhecidos, Maria teve um trabalho na escola.
“Meu professor de sociologia propôs a criação de uma empresa. Neste trabalho escolar, os alunos precisavam fazer tudo: escolher um produto pra vender, um nome pra empresa, planejar o capital inicial, fluxo de caixa, precificar a mercadoria. E aí meus amigos disseram: Maria, vamos usar a sua empresa. Você está começando a empreender, então vamos utilizá-la como exemplo. Era outubro de 2017”, explica. Foi nesta época que os brigadeiros da Maria ganharam ainda mais identidade e ela abraçou de vez o desafio de ser empreendedora. Nascia a marca Doce de Maria.
A propaganda boca a boca
Os brigadeiros da Maria foram conquistando os alunos. Não era preciso nem propaganda. A fama foi uma virada de chave. “Além do brigadeiro tradicional e do beijinho, comecei a produzir outros sabores. Eu assistia a vídeos no Youtube e ia aprendendo novas receitas: ninho com Nutella, churros, Ovomaltini, açaí, Oreo, cookie, Sonho de Valsa, Prestígio etc. Até professores e diretores começaram a comprar também e me estimulavam”. ‘Doce de Maria’ ficou tão famosa que as encomendas saltaram os muros da escola. Criou uma página no Facebook, desenvolveu a logomarca e a identidade visual da rede social que passou a ser sua grande vitrine. “Montei a página e comecei a publicar. As encomendas foram crescendo. Em um mês, recebi a primeira grande encomenda: 800 brigadeiros. Foi desafiador. Comecei a produção dois dias antes da entrega. Minha família me ajudou. Após esta entrega grande, eu continuava vendendo os brigadeiros na escola, mas as férias escolares se aproximavam. Pra continuar, o fluxo de caixa não podia parar! Decidi aproveitar as festas de fim de ano para intensificar as vendas e montei caixinhas personalizadas com docinhos e mini-panetones”. Para suprir a demanda, Maria fez parceria com uma fábrica, comprou os mini- -panetones e passou a recheá-los. Virou sucesso. “Eu lembro que neste primeiro Natal eu tive uma encomenda grande de várias empresas. As redes sociais ajudaram demais.”, explica.
Quem acredita sempre alcança
Maria continuou vendendo seus produtos até 2019 na escola e pela internet. “Quando terminei o Ensino Médio, eu decidi correr atrás do meu sonho que era ser juíza. Passei na Faculdade de Direito e tentei conciliar os brigadeiros com o estudo. A pandemia chegou e a atenção precisava ser maior com o ensino à distância. Mas as encomendas começaram a aumentar, o delivery cresceu e eu lancei a “Festa na Caixa” para que as pessoas comemorassem seus aniversários em casa. Eu ainda fiquei um ano e meio estudando e empreendendo até que tomei a decisão mais difícil que foi abrir mão da faculdade porque eu já estava realizando outro sonho: empreender”, conta. Há muitos episódios de resiliência, desafios, dificuldades e dedicação da Maria que não cabem nesta coluna. Mas Maria tem todas as características que definem o empreendedor de sucesso e que aprendemos no Empretec. Aliás, assim como eu, ela também é uma Empreteca. Atualmente, Maria é dona de uma loja linda, toda cor-de-rosa e com ambientes instagramáveis numa das esquinas da Avenida Capitão Mor-Aguiar, em São Vicente. Neste domingo, a Doce Maria completou oito anos de história e a loja está repleta de novidades e promoções. Vale muito a pena provar os doces e bolos que a Maria produz para festas, casamentos, aniversários e outras datas comemorativas. Para acompanhar as novidades é só segui-la no Instagram – @docedemariaconfeitariaa. Eu encerro a minha coluna com um depoimento incrível da jovem empreendedora: “É muito difícil você vir de uma família tradicional que te ensina a se formar no colégio, prestar uma faculdade, prestar um concurso público, seguir uma carreira CLT e você ter simplesmente coragem pra quebrar essa crença. Na visão da minha família eu só me tornaria uma mulher de sucesso se eu seguisse o que eles achavam que era certo pra mim. E eu fui contra tudo isso porque eu ouvi o que o meu coração pulsava e me fazia brilhar os olhos. Receber os feedbacks que eu ganho dos clientes é mais do que recompensador”.



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