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Os autênticos e “salvadores” pastéis de nata dos monges

07/10/2025 Addriana Cutino
Divulgação

Na cidade mais portuguesa do Brasil, as heranças estão por todos os cantos. De acordo com o Consulado Português de Santos, somos cerca de 50 mil cidadãos portugueses ou luso descendentes com possibilidades enormes de chegarmos a 90 mil, já que muitos ainda têm condições de obter a dupla nacionalidade. Eu estou nesta estatística. Afinal, também sou bisneta de portugueses.

Comparada às capitais e cidades de todo o nosso país, Santos lidera o ranking proporcionalmente ao número de habitantes. Com relação ao total de portugueses e descendentes, a cidade fica atrás apenas da capital e do Rio de Janeiro. E neste universo de ancestralidade, imagine quantos empreendedores portugueses ajudam a roda da economia santista a girar? Hoje, trago pra minha coluna mais um exemplo de superação e outras características que tornaram Armando Trevisan Neto, neto de portugueses, o dono de um negócio de sucesso: A Manteigaria do Porto.

DE CLT A DONO DE UM NEGÓCIO

Não sei você, leitor, mas eu sou apaixonada por Portugal e pelo famoso doce português de creme de ovo: o pastel de nata, mais conhecido por nós como pastel de Belém. Foi a massa cuja receita original é do Mosteiro dos Jerónimos, a grande virada do Armando. O pastelzinho criado pelos monges, em 1837, em Lisboa, permitiu que o empreendedor ressignificasse o comércio, que nasceu franquia e depois tomou outro rumo. Armando é formado em Ciências Contábeis e sempre atuou na área financeira. De bancário, passou por uma agência marítima e trabalhou numa empresa da capital paulista. No início de 2019, por causa de uma desavença entre sócios, a sociedade foi rompida. Armando ficou desempregado depois dos 50 anos de idade.

“Com a rescisão, eu quitei dívidas e enfrentei os desafios de tentar voltar ao mercado de trabalho. Numa certa idade é difícil, principalmente, com qualificações e experiência. As empresas entendem que você busca um salário melhor e compatível e eu chegava a omitir algumas informações nos processos seletivos. E foi procurando vaga de emprego, que li um anúncio sobre franquias da Manteigaria Lisboa. Decidi me cadastrar. Eu costumava tomar café e comer o pastel de Nata numa loja de São Paulo”, conta. Uma semana depois, um representante da franquia ligou para Armando e marcou reunião. O capital para investimento era de R$ 500 mil.

“Cheguei a dizer que tinha este dinheiro aplicado, mas sai da reunião arrasado. Eu estava com R$ 4,00 na carteira e o “Sem Parar” no carro da minha esposa pra voltar pra Santos. Os dias se passaram, voltei a procurar recolocação no mercado de trabalho. Dez dias depois, recebi uma ligação da franquia dizendo que meu cadastro havia sido aprovado. Minhas pernas tremeram, conversei com a minha esposa que era funcionária pública em Guarujá e ela decidiu fazer um empréstimo consignado. Vendi o carro, minha mãe ajudou a completar parte do investimento e abrimos o nosso próprio negócio no Shopping Parque Balneário,”, explica.

A prova da resiliência

Para abrir a loja, Armando precisou comprar equipamentos usados de uma outra unidade que estava fechando no Shopping Morumbi, na capital. “Eu não tenho constrangimento em dizer, mas a frente do caixa, forno, balcão, vitrine, tudo o que foi possível eu comprei usado. Em setembro, inauguramos e foi sucesso. A comunidade portuguesa passou a frequentá-la bastante porque era a única que vendia o verdadeiro pastel de Nata. Mas, em março do ano seguinte, veio a pandemia. Eu tinha acabado de receber um estoque grande porque éramos a loja franqueada que mais vendia”, conta.

Por causas das restrições, o comércio precisou fechar. Armando tinha boletos altos para pagar e tentou negociar com a franqueadora a devolução das mercadorias e a prorrogação das datas de pagamento mas a resposta era sempre negativa. “A partir dali enfrentei intransigência da franquia. Quinze dias depois do fechamento, recebi autorização do shopping pra entrar na loja. Foi um momento muito doloroso. Descartamos as mercadorias perecíveis. Os poucos produtos que estavam na validade, levamos pra casa junto com o forno da loja e passamos a fazer delivery. Minha esposa assava os produtos em casa e eu entregava. Tivemos que nos reinventar”, relembra. Passada a fase crítica e a reabertura gradual do shopping, Armando continuou tendo problemas com a franqueadora e decidiu reunir provas sobre quebra de contrato.

Para não ter de fechar, ele decidiu ir pra Portugal e tentar localizar o criador da receita do pastelzinho de nata da franqueada. “Ele também foi vítima de um situação de falsas promessas da marca. Foi ele quem desenvolveu uma receita com a melhor farinha que se adequasse à europeia. Negociei, ele aceitou e voltamos ao Brasil para que ele nos desse um treinamento de seis meses e a exclusividade da receita. Aluguei um espaço pequeno e aos poucos passamos a fazer os nossos próprios produtos. Contratei um advogado e fomos até a franqueadora. Diante de tantas cláusulas não cumpridas, ela aceitou a negociação. Foi assim que nasceu a minha própria marca: a Manteigaria do Porto. Eu investi na patente e comecei com dois funcionários na fábrica.

Aos poucos, fomos crescendo e hoje eu distribuo para vários estabelecimentos de São Paulo”, conta. Há três anos, a Manteigaria do Porto é distribuidora oficial dos doces da Festa de Portugal. Na edição deste ano, foram 20 mil doces fornecidos para o evento. Além da loja do Shopping, a Manteigaria do Porto tem um restaurante no Canal 7 e uma cafeteria no Museu Pelé, no Valongo.

“Meus filhos trabalham comigo, é uma empresa familiar. A nossa marca está bem consolidada e eu também sou franqueador. Meus clientes não tem noção do quanto foi difícil chegar até aqui. Com determinação e garra temos três lojas, a fábrica e vários distribuidores”.