
Nos últimos vinte anos, a Coreia do Sul deixou de ser vista apenas como uma economia em crescimento para se tornar uma potência global. O país não só exporta tecnologia de ponta – como Samsung e LG – mas também exporta cultura em larga escala. Música, cinema, televisão e até games se tornaram parte de uma engrenagem planejada de projeção internacional. O fenômeno do K-pop, que levou bandas como BTS e Blackpink ao topo das paradas mundiais, não nasceu do acaso.
Foi resultado de políticas públicas, investimento pesado em formação artística, estímulo à produção audiovisual e uma aposta no chamado soft power — a capacidade de um país se afirmar culturalmente e, com isso, fortalecer sua presença política e econômica.
O cinema coreano talvez seja o exemplo mais evidente dessa virada. Filmes de diretores como Bong Joon-ho, Park Chan-wook e Lee Chang-dong conquistaram a crítica internacional muito antes de Parasita (2019) quebrar barreiras e ganhar o Oscar de Melhor Filme, feito inédito para uma produção não falada em inglês.
Esse prêmio coroou um esforço de décadas: investimento em roteiristas, em escolas de cinema, em festivais e em estratégias de distribuição internacional. O audiovisual coreano é hoje uma vitrine global, alimentada também pelo sucesso das séries em plataformas de streaming. Round 6 (Squid Game), fenômeno da Netflix, mostra a capacidade de criar produtos locais capazes de dialogar com qualquer público.
O Brasil tem um trunfo semelhante, ainda pouco explorado: sua tradição audiovisual. Poucos países no mundo podem dizer que possuem uma indústria de novelas com mais de 60 anos de continuidade, capaz de ser exportada e entendida em dezenas de países.
Produções brasileiras já foram campeãs de audiência em lugares tão diferentes como Angola, Rússia, México e Turquia. Esse capital cultural, no entanto, nunca foi totalmente transformado em estratégia de país. Ficamos na posição de exportadores pontuais, mas sem a construção de uma rede global estruturada de distribuição, marketing e apoio governamental, como fez a Coreia.
VIRADA
O momento vivido pelo cinema brasileiro em 2025 indica uma possibilidade de virada. O Oscar conquistado por Ainda Estou Aqui, na categoria de Melhor Filme Internacional, trouxe visibilidade inédita para uma produção nacional neste século. E o sucesso internacional da série O Agente Secreto — exibida em plataformas fora do país, elogiada pela crítica estrangeira e comparada a thrillers de espionagem consagrados — mostra que temos capacidade criativa e técnica para disputar espaço no mercado global. A questão é: vamos transformar esses casos isolados em política de Estado e em estratégia de indústria?
A resposta passa por entender que cultura também é economia. O setor audiovisual movimenta bilhões, gera empregos diretos e indiretos e tem efeito multiplicador em turismo, tecnologia e educação.
Basta voltar a olhar o caso coreano: a explosão de demanda por cursos de coreano no mundo, a valorização da moda local, a exportação de gastronomia e até o crescimento no turismo foram diretamente influenciados pelo boom cultural.
Cada clipe do BTS e cada episódio de Round 6 se tornaram cartões de visita de uma nação inteira. O Brasil tem todos os elementos para isso: diversidade cultural, capacidade criativa e uma língua que, embora falada em menos países, já é a quinta mais usada na internet.
STREAMING
Outro ponto importante é o papel dos serviços de streaming. O mercado brasileiro é hoje um dos maiores consumidores de plataformas como Netflix, Prime Video e Disney+, mas também produz conteúdo cada vez mais competitivo. A Globoplay, que nasceu como extensão digital da TV Globo, tornou-se uma vitrine relevante de produções originais. A Globofilmes tem alimentado esse catálogo com longas e séries de grande potencial, muitos deles já negociados para circulação em outros mercados. O desafio é ampliar a escala: transformar essas produções em obras capazes de gerar impacto cultural global, como a Coreia fez com Doramas e K-dramas.
Há ainda uma questão de identidade. O Brasil costuma oscilar entre reproduzir modelos estrangeiros e apostar em narrativas locais. O sucesso internacional tende a vir quando abraçamos nossa singularidade, sem medo do sotaque, da paisagem, das histórias próprias.
Cidade de Deus mostrou isso em 2002, tornando-se referência mundial em linguagem e estética urbana. Central do Brasil já havia feito o mesmo alguns anos antes. Ainda Estou Aqui segue nessa linha, partindo de uma história brasileira, marcada pela ditadura, mas capaz de emocionar plateias no mundo todo. O diferencial está justamente naquilo que só o Brasil pode contar.
Mas, para que isso se torne recorrente e não episódico, é preciso planejamento. A Coreia do Sul não venceu o Oscar por acaso. O país investiu em formação, deu incentivos fiscais, criou fundos de fomento e articulou governo, empresas privadas e instituições de ensino em torno de um objetivo comum: tornar-se relevante globalmente.
O Brasil, com seu potencial, poderia fazer o mesmo. O caminho envolve fortalecer políticas públicas, como a Lei do Audiovisual e os editais da Ancine, ampliar a distribuição internacional das obras, estimular coproduções e criar incentivos claros para quem aposta em roteiros e formatos exportáveis.
O sonho de ganhar um Oscar de Melhor Filme, como fez Parasita, não é descabido. Mais do que isso, é possível imaginar um futuro em que produções brasileiras ocupem de forma estável festivais, rankings de streaming e prêmios internacionais. Em especial em um momento no qual a indústria cultural norte-americana passa por questões internas tão desafiadoras quanto as que temos testemunhado durante o segundo governo de Donald Trump.
Mas isso – o sucesso -depende de abandonar a lógica do improviso e abraçar a ideia de que cultura é também estratégia econômica. A novela, o cinema, a música, o teatro, os games: tudo pode compor uma engrenagem de projeção global.
O Brasil, no fim, precisa decidir se vai continuar produzindo obras brilhantes de maneira isolada, dependentes da genialidade de artistas individuais, ou se vai transformar essa criatividade em indústria.
A Coreia mostrou o caminho que outros países muito menores e menos ricos culturalmente já reproduzem. Cabe a nós escolher se vamos trilhar apenas o tapete vermelho ocasional ou se queremos, de fato, construir uma avenida inteira rumo ao mundo.


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