
“Delizioso. Devi provarlo!”. Se você aprecia a culinária italiana e conhece a língua, sabe que abóbora é a tradução de Zucca. O vegetal, muito usado no cardápio do país europeu com uma longa costa mediterrânea, está em pratos como risotos, sopas e até sobremesas. Se você nunca provou a abóbora cabotiá assada com cebola roxa e alcaparras regada ao azeite fresco, reserve um dia para experimentar o prato sem precisar arrumar as malas e atravessar o Atlântico. Como escrevi no início deste texto, é: “Delicioso e você deve prová-lo”. O prato está na mesa do Zucca Culinária Artesanal, um restaurante que fica no Campo Grande, em Santos, e já é convidativo só pela decoração que remete à Índia. Mais à frente eu conto o porquê. O restaurante também é um exemplo de como o empreendedorismo já dá sinais anos antes do “despertar”.
O amor da infância
Rogério de Souza Fontes é um dos donos e quem comanda o cardápio e a cozinha. E acreditem: ele é um dentista que deixou o jaleco e as salas de aula de duas universidades – uma delas a Santa Cecília – onde lecionava, para se dedicar ao amor que nasceu na infância. “Eu sempre gostei de cozinhar desde criança. Adorava fazer nhoque e sonho (doce) com a minha avó materna, Angelina”, conta Rogério que leva a culinária afetiva as suas criações.
O cardápio elaborado por ele traz pratos totalmente autorais. Rogério é um grande exemplo de que todos nós nascemos com algum dom e só precisamos acreditar nele pra fazer tudo acontecer. Foi exatamente por isto que o Zucca nasceu e há 14 anos atrai clientes pelo paladar diferenciado. Aproveitando a ocasião, eu faço questão de lembrar de uma das sobremesas mais famosas e cobiçadas: a torta de pistache com calda de frutas vermelhas. Ela é tão desejada que muitos clientes, antes mesmo da refeição, pedem a um dos garçons para reservar uma fatia. Na minha opinião, é uma das melhores que provei até hoje na vida. Criação do Rogério, muitos anos antes do pistache virar o queridinho dos brasileiros.
A primeira virada de chave
O dentista Rogério era dedicado aos seus pacientes. Ele e o companheiro que também é formado em Odontologia, Filipi Peres, eram donos de três consultórios no litoral paulista: em Santos, Bertioga e Boiçucanga. Sete anos depois do exercício da profissão, eles decidiram fazer um novo investimento e empreender no ramo que Rogério sempre amou: a alimentação.
Em dezembro de 1999 eles abriram um restaurante em Maresias. A ideia surgiu depois de uma das viagens internacionais do casal aos Estados Unidos. Em Miami, eles conheceram um estabelecimento em frente à praia que vendia café da manhã. “O lugar era super transado. Na varanda havia pranchas de surf, biquinis e sungas retrô.
Eram modelos dos anos 50. A gente achou super legal e quanto voltamos para o Brasil decidimos abrir o restaurante que ficou famoso. Era o Gold Cost Café.”, conta Filipi.
O novo estabelecimento servia café da manhã das 8 até às 13 horas, fechava, reabria às 15 horas e funcionava até às 21 horas. Durante este período, era servido um buffet de comida por peso. “O restaurante era frequentado por modelos, artistas, muitos da Rede Globo. Conhecemos muita gente famosa. Patrocinamos inclusive peças teatrais como da Zezé Polessa e do Stênio Garcia. Naquela época Maresias era muito frequentada por gente que descia a serra. Tinha a balada do Sirena. E eu e o Rogério tínhamos também um outro ponto comercial do Gold Cost Café lá dentro. Vendíamos hambúrguer, quiche e trufas no meio da balada.”, explica Filipi.
O tempo sabático e o início do Zucca

Depois de algum tempo mergulhados na dupla jornada como empreendedores, Rogério e Filipi decidiram jogar tudo para o alto. “Nós vendemos o restaurante e os três consultórios e vivemos pouco de mais de dois anos sabático rodando o mundo”, conta Filipi.
Enquanto Filipi decidiu investir nas formações como instrutor de yoga principalmente na Índia, Rogério aproveitou para ampliar seus dotes e conhecimentos na culinária. “Aprendi com Claude Troisgros a fazer massas artesanais como capeletti com recheio de abóbora e cogumelos salteados”, conta Rogério. Pra quem não lembra, Claude é o famoso chef de cozinha francês, considerado um dos grandes nomes da gastronomia brasileira da atualidade. Ele participou de vários programas de televisão na Globo e na GNT.
Rogério conta que leva para sua culinária autoral outras inspirações e cita nomes de chefes de cozinha renomados como Alex Atala, Helena Rizo, Filipe Bronze, Albert Adrià e Ana Jones. “Mas a minha maior referência é a culinária italiana. É a que eu mais amo, com pitadas francesas. E essa mistura vira a nossa culinária brasileira”.
De volta ao Brasil, o casal chegou a ficar quatro meses em Maresias até que entenderam que o tempo deles no litoral norte paulista havia passado. Foi aí que eles decidiram vir pra Santos e abrir o Zucca Culinária.
“O Zucca é o local onde transformo uma ideia em realidade. Cozinhar é meu propósito de vida, é meu dharma! Minha cozinha é bem autoral, tem muita dedicação e amor. Assim, levo comida de verdade, através da alquimia de ingredientes, à pratos preparados com muito sabor. Cozinhar é a minha vida. É através desta arte que eu manifesto todo o meu amor”, conta Rogério.
Pra saborear os pratos deste empreendedor que nunca virou as contas para o seu talento é só passar pelo bairro Campo Grande. O Zucca Culinária fica na Rua Espírito Santo, 21. Aproveite para apreciar a decoração indiana. Na mesma casa, em outra entrada, funciona a shala de Filipi, espaço onde ele ensina aos seus alunos as práticas do Yoga. Bon appétit! e Namastê.



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