Longevidade

Ninguém precisa ser um “coitadinho” na velhice

30/08/2025 Ivani Cardoso
Divulgação

O geriatra e professor Alberto de Macedo Soares lembra que estava nos últimos anos da Faculdade de Medicina quando acompanhava o avô, dr. Milton de Macedo Soares, também médico, para fazer a consulta na casa dos pacientes mais velhos. Ele se encantava com o rito da consulta sem pressa, do tempo para o cafezinho, do conselho do avô para que tirassem o tapete do chão para evitar quedas. Desde a pandemia fechou o consultório e resgatou o atendimento em casa, e está muito feliz com a escolha. Alberto foi pioneiro no estudo do envelhecimento e batalhou pela criação do Departamento de Geriatria na Associação dos Médicos de Santos, há quase 40 anos. E tem orgulho de estar na equipe da primeira faculdade que contemplou a Geriatria na grade curricular, há 25 anos. Confira a entrevista.

Os estudantes de Medicina estão se interessando mais pela especialidade?

Acredito que sim, mas a formação em Geriatria implica em no mínimo 10 anos de estudo, pois além dos seis anos de faculdade, são mais dois anos de residência em Clínica Geral e mais dois em Geriatria. De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Conselho Federal de Medicina só temos 2.400 geriatras para uma população de quase 32 milhões de idosos, o que resulta em um geriatra para cada 13.500 idosos.

Quais são as habilidades necessárias para tratar o idoso?

As pessoas confundem Clínica Geral ou Medicina de Família com Geriatria. O clínico atua no cuidado do adulto em geral; o médico de Família no cuidado primário, com foco em prevenção e acompanhamento de doenças comuns, além de atender todas as faixas etárias; a Geriatria é a especialidade médica focada no idoso, para lidar com múltiplas doenças simultâneas, diversos medicamentos, declínio funcional, síndromes geriátricas (quedas, demência, incontinência), decisões de fim de vida e cuidados paliativos.

Os homens são mais resistentes a tratamentos e prevenção?

Infelizmente sim, e envolve fatores biológicos, culturais e comportamentais. Homens costumam ser menos aderentes a tratamentos, principalmente quando são prescritos de forma contínua e/ou a longo prazo, vão menos às consultas de retorno e aos procedimentos de investigação precoce de doenças. Por isso, homens morrem mais cedo.

Os velhos, mudaram?

Mudaram nos aspectos vários físicos, culturais, sociais e psicológicos. Antigamente, poucos idosos passavam dos 70 anos, e hoje vivem muito mais, com assistentes diários ou sozinhos em seus próprios lares, participando de tarefas, utilizando seus celulares, redes sociais, e até fazendo cursos on-line. Há o lado preocupante desta independência plena: são os principais alvos de golpes digitais, especialmente via aplicativos, whatsapp, ligações redes sociais com perfis falsos.

É possível melhorar o envelhecer?

Esta é uma lição de casa que todos devemos ter em mente. Se há que se fazer atividade física, que ela comece hoje; se há a necessidade de uma dieta mais específica, que ela se inicie hoje, e não às segundas-feiras. O trabalho realmente dignifica, mas deve ser repensado com mais intensidade, principalmente quando não traz satisfação.

Por que pedem tantos exames para os velhos?

O convênio é uma solução, mas muitas vezes um complicador. O paciente quer fazer exames e muitas consultas para aproveitar porque paga, mas vai chegar uma hora em que pode dar confusão. Muitos pacientes que tomam remédios por conta própria, como aspirina depois do almoço ou suplementos, nem falam para o médico, acham que não é remédio. A ideia “se bem não faz, mal não vai fazer” é errada.
Depressão mal diagnosticada, acontece muito?

Sim, é o chamamos de subdiagnóstico da depressão. A pessoa está menos ativa, menos participativa, com menor entusiasmo e tudo mundo fala: “Ah, é porque envelheceu”. Às vezes, o paciente está menos participativo, vendo menos televisão ou conversando porque está ouvindo menos, e ninguém percebeu. E muitos com indicação de remédios melhoram e param de tomar. A recaída é pior.

E o lado sexual?

Até década de 70, o homem ficava com a disfunção erétil, a mulher parava de ter relação sexual e pelas pesquisas ficamos sabendo que grande parcela dessas mulheres estava se achando muito bem assim. Com os “empreendedores da sexualidade, apareceram medicamentos para o homem, que voltou a ter função erétil e a procurar a esposa. Todos felizes? A realidade não é tão bonita assim. Hoje, a mulher tem uma relação sexual e, se não atinge o prazer, fala sobre isso. As mulheres mais velhas não se manifestavam, aceitavam, e isso ainda é frequente.

A dificuldades em tirar as chaves do carro chega ao consultório?

Sim e é delicado. É preciso ver a individualidade de cada um, é quase uma castração tirar o carro, principalmente daquele que gosta de dirigir. Nos Estados Unidos chamam o elderly driver para evitar os idosos dirigindo carros antigos enormes, causando acidentes. Um conselho: nunca devem ser os filhos a tirar o carro, os pais interpretam como desrespeito, invasão da privacidade. O papel do médico é conscientizar o paciente quando os reflexos, a audição ou a visão podem provocar acidentes.

Qual é a arte de envelhecer bem?

Levar a vida de uma maneira racional, acolhendo as suas limitações e não se entregando diante delas. É preciso se adaptar e saber que usar o corrimão, usar bengala e preparar a casa não é o fim. A grande alavanca para envelhecer bem é ter um propósito de vida. E para aqueles que dizem que não tem, você deve fazer a pergunta: “Isso não seria um propósito?” Se não tem, é preciso buscar. Você não precisa ser um coitadinho na velhice, tem boas escolhas para fazer.