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Na era da IA, ela prova que a câmera virou coração

06/01/2026 Addriana Cutino
Na era da IA, ela prova que a câmera virou coração | Jornal da Orla

Cada dia que passa, o mundo deixa de ser o mesmo. Mas isto não é novidade, afinal evolução não é uma palavra nova nos dicionários espalhados por diversas culturas e nações. Desde que a Terra existe, o ser humano se debruça sobre livros, filmes, catálogos e diversas fontes legítimas de informação para entender como foi o passado e como chegou até aqui. No meio da velocidade das coisas, há uma arte que nunca perdeu seu glamour: a fotografia.

Se você chegou a esta linha, provavelmente, deve estar me questionando e pensando mais ou menos assim: “A chegada da IA mudou este cenário e está, inclusive, substituindo as máquinas fotográficas”. Eu discordo e vou mostrar o porquê. Afinal, no empreendedorismo a regra é clara: se há oferta, há demanda.

A fotografia é, em sua essência, o registro de um encontro. De um lado, o mundo; do outro, um par de olhos humanos carregados de memórias, traumas, amores e intuição. Embora a Inteligência Artificial (IA) consiga processar bilhões de pixels e simular estéticas perfeitas, existe um abismo entre o processamento e a presença.

Nas mãos de um profissional sensível, a máquina fotográfica dificilmente será substituída por algoritmos. A Michele Matos está aí pra provar! Mas, antes, deixa eu contar a história desta empreendedora de Santos que vive da arte de congelar momentos.

UMA CÂMERA NA MÃO, UMA CRIANÇA FELIZ
“Empreender nunca foi apenas uma escolha profissional para mim. Foi uma resposta à minha própria história”. É exatamente assim que ela define sua trajetória entre máquinas fotográficas. Eu chamo de propósito.

A relação de Michele com as câmeras começou muito cedo, já na infância. O pai tinha em casa uma filmadora e uma câmera fotográfica e ela adorava brincar de ser fotógrafa! “A minha relação começou aos seis anos de idade. Naquela época eu fazia aulas de teatro, dança e sempre encontrei na expressão artística uma forma de me comunicar com o mundo”, conta.

Apesar disso, sua a trajetória profissional seguiu outro caminho. Ela trabalhou por 17 anos como CLT, em empresa de comércio exterior. Durante todo este tempo, a fotografia era um hobby e também uma válvula de escape.

Hobby que virou trabalho

“Em 2003, eu comecei a sair, frequentar casas noturnas com amigas e descobri um site de balada. Achei a ideia sensacional. Então, eu também montei o meu próprio site em Santos, o lastnight.com.br. Ele não existe mais, mas na época passei a fotografar as pessoas na balada, fazia amizade e foi a maneira que encontrei pra externar um pouco a minha arte. Fiz isso por quatro anos. Em 2007, eu encerrei o site e foquei apenas na minha carreira de Comércio Exterior até que em 2009 eu conheci meu atual marido. Ele tinha uma câmera semi-profissional e acendeu ainda mais meu amor pela fotografia”, explica a empreendedora que também é cantora e tinha uma banda que se apresentava nas noites santistas.

Em 2013, a primeira sobrinha de Michele nasceu e junto com ela cresceu a vontade de estar na companhia de sua máquina fotográfica. “Eu e o meu marido compramos uma câmera profissional, começamos a estudar, fazer cursos. Eu me aperfeiçoei em fotografia materno-infantil, recém-nascidos, bebês e gestantes e ele, em fotografias de eventos. Eu me encantei demais com este universo e em 2014 montamos o nosso primeiro estúdio. Era um home studio, em casa mesmo e continuava a trabalhar como CLT”, conta.

Em 2015, Michele teve uma crise de ansiedade e foi diagnosticada com Burnout e decidiu que era hora de se desligar da empresa e trabalhar por conta própria e mesmo atravessando a crise econômica que atingiu o país, ela foi resiliente e não desistiu dos seus sonhos. “De 2016 pra cá eu não parei, a minha empresa cresceu muito. Eu fiz especialização em fotografia de parto em São Paulo e foi o setor onde eu realmente me encontrei. Quando terminei o curso, procurei alguns hospitais em Santos para fazer parcerias, consegui um deles e lá estou até hoje. São oito anos trabalhando direto. A fotografia de parto me fez entender qual era a minha missão no mundo e isso foi muito importante porque eu amo humanizar tudo o que faço na vida”, explica.

Em 2019, ela montou um estúdio fora de casa, mas no ano seguinte veio a pandemia. Apesar disto, Michele não parou de fotografar partos. Era um momento que todo mundo estava sensibilizado, principalmente as mães, e o diretor do hospital não interrompeu o serviço porque considerava a única forma que as mães tinham de registrar o momento tão desafiador naquela época.

Michele seguiu firme no seu propósito. Em 2022, ela ganhou um prêmio internacional – o Outstanding Maternity Award. O concurso de fotografia é focado exclusivamente em imagens de maternidade. “Pra mim, foi o ápice da minha carreira. Ter um reconhecimento internacional coroou a minha trajetória e hoje eu sou referência pra muitas pessoas, principalmente neste setor da fotografia de parto”, conta.

Hoje em dia, além deste setor, Michele e o marido ampliaram horizontes. Ela voltou a fazer retratos corporativos, uma paixão antiga. “Hoje, estamos bem estruturados, temos um estúdio em Santos, fazemos fotos materno-infantil , social e profissional e estou muito feliz. Consegui até a voltar a cantar. Foram muitas lutas, mas sempre fui resiliente em seguir e acreditar no meu propósito”, conta.

COM OU SEM IA, A PRESENÇA É VÍNCULO
Agora chegou o momento de citar a IA no meio disto tudo e eu deixo entre aspas para você entender a visão de uma fotógrafa profissional. “Hoje, acompanho de perto o avanço da inteligência artificial. Acredito que a tecnologia pode ser uma grande aliada na gestão, na organização do fluxo de trabalho e em processos operacionais mas ela não substitui o essencial. A inteligência artificial pode gerar imagens, mas não cria vínculo, não acolhe e não entende o contexto emocional de um parto ou da história de uma família. O diferencial do meu trabalho está justamente onde a tecnologia não alcança: na experiência humana. À frente da Matos Produções, sigo empreendendo com um olhar atento ao futuro, sem abrir mão do que considero inegociável. Em um mercado cada vez mais automatizado, aposto na sensibilidade como estratégia e na presença real como valor”.