Cena

Morre Giorgio Armani, o homem que vestiu o poder no século 20

05/09/2025 Gustavo Klein
Divulgação

O mundo da moda chora a perda de um de seus mais lendários arquitetos. Giorgio Armani, o estilista que transformou a alfaiataria em uma segunda pele, que silenciou o excesso e elevou a simplicidade à máxima sofisticação, morreu ontem aos 91 anos. A causa da morte não foi informada pela família, que fará um funeral reservado, mantendo a discrição que sempre pautou sua vida e obra.

O grupo Armani, em comunicado emocionado, lamentou a perda de seu criador, fundador e incansável motor, confirmando o falecimento sereno, cercado por entes queridos.

A capela será montada em Milão entre sábado e domingo, para que o público preste as últimas homenagens ao homem que redefiniu o guarda-roupa contemporâneo.

Armani não foi apenas um criador de roupas; foi um visionário social. Sua visão ultrapassou as passarelas, influenciando cinema, música e a própria noção de elegância. Enxergava a moda como reflexo do indivíduo, não prisão de tendências. Sua estética minimalista, com cortes limpos, tecidos fluidos e paleta neutra, especialmente o icônico cinza greige, tornou-se uniforme da elite global, do empresário ao astro de Hollywood.

MEDICINA

Nascido em Placência, no norte da Itália, em 1934, Giorgio Armani não começou na moda. Estudou medicina por dois anos antes de servir o exército, abandonando a universidade e iniciando sua jornada em loja de departamentos.

Nos anos 1960 passou a trabalhar como designer na Cerutti 1881, onde conheceu o parceiro de vida e negócios, Sergio Galeotti. Em 1975, fundaram a Giorgio Armani S.p.A.

A primeira coleção, apresentada no ano seguinte, revolucionou o terno masculino ao desconstruí-lo, eliminando estruturas rígidas e forros pesados para criar peças leves, fluidas e confortáveis.

O power suit dos anos 80, símbolo de poder e sucesso, era uma peça de design humanizado. A transição para o guarda-roupa feminino manteve o mesmo espírito, vestindo mulheres com ternos de calça que uniam autoridade masculina à fluidez feminina, empoderando sem excessos. Jaquetas desestruturadas e silhuetas alongadas tornaram-se marcas de uma estética que privilegiava conforto e liberdade. A década de 70 marcou a fundação da marca; os anos 80, seu status de lenda.

AMERICAN GIGOLO

O grande momento de Armani foi o filme American Gigolo (1980). O figurino impecável do protagonista, Julian Kaye, interpretado por Richard Gere, era quase integralmente Armani.

Os ternos fluidos, de cores neutras e cortes precisos, transformaram Gere em ícone de estilo e Armani em nome onipresente em Hollywood.

A relação com o cinema se aprofundou: vestiu estrelas em Os Intocáveis (1987), Batman (1989) e muitos outros, além de se tornar o queridinho do tapete vermelho do Oscar, criando looks memoráveis para Jodie Foster, Cate Blanchett e outros.

Sua influência se estendeu à música. Artistas como Eric Clapton, Tina Turner e Beyoncé usaram suas criações, e a marca foi citada em canções que reverenciam luxo e elegância. A simplicidade de seu estilo permitiu encaixar-se em qualquer contexto, tornando-se sinônimo de elegância atemporal.

A trajetória não foi isenta de críticas. Sua obsessão por perfeição e controle total da marca, que nunca vendeu parte do negócio para conglomerados, gerou tensões e isolamento. Era conhecido por franqueza e declarações polêmicas, como crítica ao uso de modelos muito magras e defesa de um ideal de beleza mais saudável.

Seu mais recente projeto foi a campanha Emporio Armani, celebrando espírito jovem e urbano, e o lançamento de hotéis e residências de luxo. A expansão para decoração, restaurantes, perfumaria e cosméticos mostra curiosidade e dedicação incansável até os últimos dias.

O legado de Giorgio Armani vai além de seu nome. Ensinou que moda não precisa gritar para ser ouvida, que conforto e elegância coexistem, e que a verdadeira força reside na sutileza. O império que construiu, baseado em visão singular e independência, seguirá com o mesmo espírito.