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Longa pétala de mar

23/08/2025 Rafael Medeiros
Longa pétala de mar | Jornal da Orla

Sempre que lemos Isabel Allende – uma das joias da coroa da literatura latino-americana – somos trespassados pela mesma sensação: essa mulher sabe contar uma história como ninguém. Longa pétala de mar, romance histórico lançado em 2019, confirma essa percepção.

Partindo de 1938, o romance se inicia em meio à Guerra Civil Espanhola. A família Dalmau, opositora do regime ditatorial franquista, não encontra outra solução senão fugir enquanto o mundo ocidental observa paralisado a expansão do nazifascismo. Surge a oportunidade de imigrar para o Chile, um remoto país da América Latina. O famoso episódio do navio Winnipeg, capitaneado pelo então diplomata chileno – e futuro Prêmio Nobel – Pablo Neruda, é bem retratado no livro. A boa sorte dos Dalmau, entretanto, dura pouco: fugiram da ditadura de Franco para enfrentar a ditadura de Pinochet, largamente financiada pelos EUA para depor o presidente eleito Salvador Allende por meio de um golpe militar.

O livro se projeta de 1938 até 1994, traçando as desventuras da família Dalmau em uma quadra tão áspera da História. Sem embargo do romance parecer indicar como protagonista o destemido Victor, a grande personagem do livro é Roser, uma mulher indestrutível, a verdadeira heroína de toda a trama. História, ficção, ditaduras e amor se fundem num livro que tem tudo dentro dele.

Motivos para ler:

1- Isabel Allende mostrou altas credenciais já em seu romance de estreia: A casa dos espíritos (1982) é um mítico clássico latino-americano – sobre ele já escrevemos anos atrás. É a mais lida escritora de língua espanhola do mundo. Multipremiada, carrega nas veias as dores e o orgulho de sua família: é sobrinha de Salvador Allende e, após sua cruenta morte, teve de buscar asilo noutros países. Ela se define como “uma eterna estrangeira”;

2- O livro atravessa décadas difíceis da História. O forte fundo histórico moldou o destino dos personagens fictícios e reais que entram e saem de cena. Mas a vida acontece mesmo em meio às mais ruidosas turbulências. Até mesmo o amor. É com habilidade sobrenatural que Isabel tece as delicadezas, as incongruências e as ilogicidades do sentimento;

3 O leitor irá se deparar com um contexto político tormentoso: o alastramento do fascismo europeu, responsável pela eclosão da 2ª Guerra Mundial; as ambivalências da Guerra Fria; os golpes militares orquestrados no Cone Sul. Cabe aqui uma reflexão simples, porém poderosa: a democracia é mesmo um milagre. Quem perde uma eleição deve ir para casa e tentar na próxima; quem ganha, governa. É a regra de ouro. Quem não entende isso sequer deveria entrar no jogo democrático, porque democrata não é.