
Foi em uma tempestuosa noite de 1.816 que o já ilustre e polêmico Lorde Byron, refugiado em Genebra para escapar à acusação de incesto com sua meia-irmã, propôs aos amigos um desafio: cada um deveria escrever uma história de terror. O pequeno grupo contava com John Polidori, Percy Shelley, Claire Clairmont e Mary Godwin. E foi dessa despretensiosa brincadeira que nasceu, pelas mãos de uma jovem garota, um dos maiores mitos de sempre do horror: Frankenstein.
Filha do enorme escritor Wiliam Godwin e da revolucionária Mary Wollstonecraft, não é de se estranhar que Mary, que passaria a assinar o sobrenome Shelley após se casar, se dedicaria às letras. Entretanto, impressiona pensar que uma história tão profunda e bem elaborada emergiu de uma jovem de meros 18 anos. Sim, porque Frankenstein é muito mais do que um romance de terror: é uma história moral, cheia de camadas inteligentemente sobrepostas para provocar questionamentos sobre o desejo, o conhecimento e seus limites, a (des)humanidade perante o diferente, a solidão, a ética e o amor.
A literatura do terror nunca foi a predileção deste colunista. Pouco sabemos de Poe, Lovecraft, Stephen King, Bram Stoker. Talvez por achar o gênero estilisticamente caricato ou por entendê-lo pouco abrangente, livros dessa estirpe não frequentam nossas pilhas. Foi-nos sugerido ler Frankenstein para relativizar esse preconceito. E pronto, o mundo mudou. O título é muitíssimo bem escrito e a história é interessante do início ao fim. Uma nova porta literária se abriu. Realmente é importante manter o coração livre e aberto.
Motivos para ler:
1- A britânica Mary Shelley (1797-1851) assombrou o mundo – literalmente falando – ao publicar o seu romance gótico Frankenstein: ou o Prometeu Moderno. Viveu uma curta, porém muito profícua vida literária e ensaística;
2- O leitor notará uma grande discrepância entre o conteúdo do livro e o imaginário cultural sobre a história. O monstro de Frankenstein normalmente é tratado na cultura popular como uma besta desprovida de qualquer racionalidade. Já no livro, Mary se encarrega de meticulosamente construir o “crescimento” da criatura, mostrando-a extremamente articulada, inteligente e eloquente. A forma como o monstro percebe sua própria desumanidade e sofre com o isolamento é comovente;
3– Afinal, o que é o ser humano e o que é a monstruosidade? Estas realidades, postas no início do romance como axiomas incontrastáveis, vão esmaecendo à medida em que o Dr. Victor Frankenstein endurece seu coração vingativo e a criatura, ao contrário, se humaniza. Que o leitor não se assuste se passar a simpatizar com a jornada errante do monstro.



Maravilha….gostosa…leitura
Lerei, sempre me gerou curiosidade.
Grato.
Essa coluna está cada vez melhor
Como escreve bem esse garoto…
… ainda espero a letra pra colocarmos uma melodia bem sinistra
Rock e Horror sempre andaram juntos
Obrigado Mr Medeiros
Fiquei curiosa pois também não sou do gênero terror, vou colocar na fila de espera… um dia chego! kkk… Mais uma vez, ótima resenha Dr. Rafael. Agradecemos!
Achei Frankenstein uma obra interessante, pois num primeiro momento apresenta um monstro frequentemente mal interpretado ( como um ser puramente maligno) mas, ao longo da história nos entretém, por nos mostrar um ser complexo e multifacetado ( com emoções e sentimentos profundos ).
Obrigada por compartilhar seu conhecimento e talento, Dr. Rafael Medeiros!
Uma obra excelente pelo desenvolvimento da narrativa, ao mostrar criador e criatura num embate entre as ações e sentimentos da natureza humana.
Estimado Dr. Rafael, obrigado por mais esta brilhante coluna, espero que a sua esteja boa. De toda sorte, me lembrei do livro o Decamerão, apesar de neste as pessoas não contarem histórias de terror, ou quem sabe sim diante do envolvimento satírico de padres com mulheres alheias e coisas do tipo. Fico a recordar dos tempos de gruta, que saudade!
Sigo lendo suas recomendações literárias…