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Eterna juventude

24/05/2025 Ricardo Mucci
Eterna juventude | Jornal da Orla

Interesse em retardar ou reverter o envelhecimento só aumenta

A primeira vez que ouvi falar na “morte da morte” foi durante o curso de mestrado em 2016, quando eu pesquisava o fenômeno do envelhecimento populacional e sua relação com as inovações capazes de contribuir para melhoria da qualidade de vida na longevidade. A autora da frase foi Martine Rothblatt, expert em genômica e dona da United Therapeutics, empresa bilionária de biotecnologia. Ela afirmava à época que até o final desse século, o ser humano será imortal.

Dúvidas à parte, fato é que a busca pela eterna juventude sobrevive ao tempo e, agora com a elevação da expectativa de vida, tornou-se exponencial, tanto por parte das pessoas que querem retardar os impactos do envelhecimento, quanto das empresas que fabricam produtos para conter os efeitos da idade. O rejuvenescimento é um negócio de bilhões de dólares. Em Honduras, país do Caribe, o governo transformou a Ilha de Roatan num polo de inovação em saúde e criptomoedas. É lá que está instalada a Vitalia City, um centro de pesquisas que reúne cientistas e investidores em busca de inovações para estender a vida humana através de terapias genéticas, células-tronco e inteligência artificial. Sem alarde, empresários e celebridades já se submetem a tais tratamentos, na tentativa de reverter os efeitos do tempo.

Nos últimos anos, a ciência tem avançado significativamente na compreensão desse fenômeno, impulsionada pelo envelhecimento acelerado da população e pelo interesse crescente em terapias que possam retardar ou até reverter esse processo.

Pesquisadores da Harvard Medical School desenvolveram um coquetel químico capaz de rejuvenescer células humanas em laboratório, revertendo a idade biológica em até 25 anos. No Salk Institute, na Califórnia, estudos com camundongos geneticamente modificados demonstraram que é possível restaurar tecidos envelhecidos, melhorando funções cognitivas e físicas. Na China, pesquisadores conseguiram prolongar a vida de ratos em até quatro meses, o equivalente a mais de dez anos em humanos, utilizando proteínas derivadas de células humanas.

Apesar dos avanços promissores, especialistas alertam para os riscos associados ao uso indiscriminado de terapias antienvelhecimento sem comprovação científica. O Conselho Federal de Medicina do Brasil proíbe a prescrição de hormônios e antioxidantes com essa finalidade, devido à falta de evidências sobre sua eficácia e segurança. Além disso, o uso inadequado dessas substâncias pode aumentar o risco de doenças como câncer e diabetes. Portanto, embora a busca por métodos para retardar ou reverter o envelhecimento esteja progredindo, é fundamental que qualquer intervenção seja baseada em evidências científicas sólidas e realizada sob supervisão médica.

O envelhecimento é um processo complexo, influenciado por diversos fatores: genéticos, epigenéticos (efeitos do ambiente externo) e ambientais (habitat). A ciência avança na compreensão do envelhecimento, mas soluções milagrosas não existem. Enquanto pesquisas sérias buscam intervenções seguras, o mercado explora a vulnerabilidade de quem deseja rejuvenescer a qualquer custo. A melhor estratégia, por enquanto, continua sendo a adoção de hábitos saudáveis, como dieta equilibrada, cérebro ativo e acompanhamento médico regular. A promessa de uma “fonte da juventude” ainda é distante, e práticas não comprovadas podem trazer mais riscos do que benefícios e provocar, até mesmo, a morte.