
Empreender é uma escolha e um desafio. Por esta razão, quando alguém me pergunta: “Eu queria tanto trabalhar por conta própria mas não sei qual ramo escolher, o que você acha?”. A minha resposta é automática: “Com certeza você não está preparado (a) para abrir seu próprio negócio”.
Se você ainda não tem um propósito, não se arrisque. Empreender é uma prova de resiliência e na primeira dificuldade você já vai pensar em desistir. Sucesso é construção, é conquistado com muito trabalho e amor porque há uma causa.
Na coluna de hoje, eu justifico meu posicionamento com um grande exemplo. Ele vem do handmade, ou seja, do feito com as mãos, do artesanato. Histórias, na verdade, não faltam mas desta vez eu trago um modelo de empreendedorismo da economia reversa, também conhecida como circular.
Antes mesmo de eu contá-la, você já deve imaginar que há um grande propósito neste trabalho. E ele vai além do lucro e tempo investido.
NA NATUREZA TUDO SE RECRIA
Luis Kuabara e Renata Nascimento vivem em São Sebastião e transformam o que vem, de graça – da terra e do mar – e é descartado, em produto de valor. O casal caiçara enxergou em seu território o empreendedorismo sustentável, que gera renda, contribui com o reaproveitamento, traz durabilidade, o consumo consciente e encanta clientes de vários cantos do litoral paulista e até fora do Brasil, pela inovação e criatividade.
Nesta relação de captação dos recursos naturais e produção, cada um tem um talento peculiar e é protagonista de sua arte autoral.
Biojoias de escamas de peixe
Das mãos da Renata nascem as biojoias, produzidas com escamas de peixe. Uma técnica que exige a bondade do tempo e a paciência humana. “Pra quem não sabe, 70% das biojoias vem da natureza. O restante é alumínio ou aço inox para acabamento. Este material é usado pra produzir os ganchinhos, por exemplo, que colocamos no furo das orelhas”, explica.
A empreendedora também usa casquinhas de madrepérolas – substância que reveste o interior das conchas de certos moluscos – para confeccionar pingentes dos colares e produz flores com as escamas de peixe para adornar a peça.
A produção não é unilateral, afinal é preciso a atuação e consciência dos pescadores. “Como moramos no litoral, consumimos muito pescado. Nós temos parcerias com o entreposto de pesca do litoral. Quando os pescadores limpam os peixes, retiram as escamas. Eles, então, guardam este material para nós em sacos no freezer. Quando o volume é bem grande, nos chamam e vamos buscar o que seria descartado no lixo. A partir daí começa outra etapa que é o processo de beneficiamento”, conta.
Isso significa que para chegar as peças prontas, a matéria-prima passa pelo descongelamento, em seguida a lavagem e a separação. Renata explica que as escamas de peixe são mantidas em um recipiente com água misturada e detergente neutro. A água deve ser trocada duas vezes ao dia. “Por isso, não é comum encontrar peças com este material. O processo com escamas de peixe demanda cuidado, tempo e paciência. Leva de três a dez dias.”, complementa. A última etapa é a coloração onde a sustentabilidade também atua. Renata conta que as escamas não ficam totalmente brancas e é preciso passar por um processo de coloração que usa descartes de vegetais, cascas de legumes e sachês de chá usados. “São folhas, repolho roxo, beterraba e cenoura. As escamas ganham coloração e ficam lindas.”
As biojoias de escamas de peixe são vendidas para todo o Brasil. O Instagram é a vitrine gratuita da artesã.
Folhas que viram cestos sofisticados

As mãos de Luis dão vida às peças decorativas. Os materiais também são de descarte da poda de árvores e de coqueiros das ruas do litoral. A paciência é outro ingrediente do processo mas nada que se compare ao das escamas.
Tartarugas, cestos de vários tamanhos e formatos e até chapéus são esculpidos com delicadeza e maestria por, no mínimo, duas horas. Um processo 100% artesanal.
“Nós temos uma parceria com um viveiro aqui de São Sebastião. Eles fazem a poda, me avisam e vou até o local pra pegar os restos da poda.”, explica.
Isto significa que as peças fabricadas pelo Luis e pela Renata têm custo zero mas muito propósito que gera valor agregado. O maior deles é a preocupação com meio ambiente, a responsabilidade ambiental, conhecimento, técnica e tempo.
Para conhecer o trabalho deste casal que também é parceiro do Instituto Supereco, uma das ONGs que participou do CleanUp Day em Santos e reuniu mais de 170 entidades, é só acessar as páginas do Instagram: @brasilcaicarabiojoias e @studio_artesanal_lk.
Em tempos de mudanças climáticas e COP-30, este casal merecia muitos prêmios. Além da consciência há muita beleza no ar! Virei fã.



Fazemos com muito amor, identidade e maestria esta arte, pois não vemos como trabalho mas como inspiração para novas e renovadas atitudes positivas. Que venham mais Luis e Renata pois a Terra precisa e merece. Partilhamos um pouco do que colhemos, do lugar que vivemos, que é tão rico e próspero.
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Parabéns ao casal de artesãos empreendedores. Conheço o trabalho deles de perto, é muito rico em detalhes, merece todo reconhecimento.