
Se o envelhecimento já é desafiador em uma sociedade que marginaliza os mais velhos, para a população LGBT+ esses obstáculos se multiplicam. A 8ª Parada do Orgulho LGBT+ de Santos traz este ano o tema “Envelhecimentos LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”, jogando luz sobre as vivências dessa comunidade. A programação termina na marcha do dia 29 de junho.
Entre os principais desafios enfrentados estão a marginalização, o abandono familiar, a solidão e a negligência das necessidades específicas dessa população, agravados pela ausência de políticas públicas eficazes. Conquistar uma vaga em instituições de acolhimento, sobretudo aquelas mantidas por grupos religiosos, é ainda mais difícil. Para muitos, sair do armário continua sendo um drama, exigindo coragem e resiliência.

A psicóloga clínica Daniella Stazack explica que o envelhecimento, por si só, já impõe perdas e dores. “A diferença é que a pessoa LGBT+ muitas vezes não conta com o acolhimento familiar, o que gera um isolamento maior, podendo evoluir para depressão ou outros quadros mais graves”, alerta. Ela acrescenta que ainda há muito preconceito, inclusive no atendimento à saúde: “Faltam profissionais preparados e políticas públicas. O desconhecimento é generalizado”.
Daniella destaca a importância das redes de apoio: “Velhice não é doença, mas pode gerar doenças. Por isso, é fundamental cuidar da saúde física e mental desde cedo”. Ela também observa que muitos idosos LGBT+ não conseguiram se assumir. “Enquanto os jovens têm mais liberdade para explorar sua sexualidade, os mais velhos ainda vivem no silêncio e no anonimato. As mulheres geralmente buscam ajuda e fortalecem vínculos afetivos. Já muitos homens gays tendem a se fechar, priorizando o corpo como referência de identidade. Com o envelhecimento, essa orientação se perde, e muitos ficam à deriva emocionalmente.”
Para mais informações sobre a programação da Parada de Santos, acesse o Instagram: @paradasantosoficial.
A leveza para tirar a fantasia
Foi apenas aos 40 anos que Daisy Eastwood — contadora, advogada e diretora da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Santos (APOLGBT) — decidiu se assumir. O impulso veio quando sua filha, então com 15 anos, contou que gostava de meninas. Natural de Curitiba e moradora de Santos desde os sete anos, Daisy lamenta que a cidade ainda tenha traços de preconceito e conservadorismo em relação à comunidade LGBT+.
“Envelhecer já é difícil”, comenta. Sua trajetória reflete a de muitas mulheres de sua geração: descobriu que preferia mulheres ainda jovem, quando ser LGBT era considerado uma patologia. “Ninguém saía do armário. Muitos se casavam com pessoas do sexo oposto para serem aceitos.”
Daisy observa que o preconceito também existe dentro da própria comunidade: “A juventude LGBT ainda discrimina os mais velhos. Se a pessoa não tiver uma cabeça boa e uma rede de apoio, pode cair numa depressão profunda”. Ela critica ainda a falta de preparo de profissionais da saúde. “Médicos e psicólogos, em geral, não estão capacitados. Muitos encaminham para psiquiatras. Em Santos há uma rede, mas voltada principalmente para jovens”.
Ao se assumir, Daisy levou uma bronca da mãe: “Ela dizia que eu já não tinha mais idade para isso. Depois aceitou. É difícil viver uma vida que não é sua. Minha filha me deu coragem.” Às vezes a solidão bate, mas conta com o apoio de amigos e família. “Foi um alívio tirar a fantasia. Hoje sou militante e integrada à causa”.
Dicas de Filmes
Deuses e Monstros (1998) – Em 1957, o diretor James Whale (Ian McKellen), famoso por seus filmes de monstros nos anos 30, retorna para casa após sofrer um derrame. Solitário, ele passa a compartilhar memórias com seu jovem jardineiro (Brendan Fraser). (Telecine Cult)
Flores Raras (2012) – A poetisa americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto) viaja ao Rio de Janeiro e se hospeda com a amiga Mary, que vive com a arquiteta Lota de Macedo Soares (Glória Pires). Aos poucos, nasce um romance inesperado entre Elizabeth e Lota. (Netflix)
Morte em Veneza (1971) – O compositor Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde) vai a Veneza em busca de descanso, mas se vê perturbado por uma paixão silenciosa por Tadzio, um jovem em férias com a família. (Prime Video)
Minhas Mães e Meu Pai (2010) – Jules e Nic, casadas há quase 20 anos, são mães de dois adolescentes concebidos por inseminação artificial. Sem que elas saibam, os filhos decidem conhecer o pai biológico, dando início a novas conexões afetivas. (Prime Video)



Excelente abordagem, muito essencial, mesmo nos dias de hj, quando.imaginamos que o preconceito nem existisse mais. Parabéns por escrever sobre o tema!
Muito oportuno seu texto ao abordar realidades que se mantêm ocultas, provavelmente por receio dos preconceitos e agressões estimuladas pelos adeptos da violência. Parabéns pela clareza e respeito à comunidade que , sem dúvida, merece tratamento digno em todas as idades.
Parabéns, Ivani, a reportagem está clara e levanta assunto desconhecido para muitas pessoas, dando oportunidade as pessoas se colocarem e ganharem espaço na sociedade.