
O maior prazer para um jornalista é contar histórias que merecem virar roteiro de cinema. Se você conhece algum jovem que mora em uma área de grande vulnerabilidade social, convide-o a esta leitura. Pra quem não enxerga perspectivas para melhorar sua condição, aqui vai um conselho: crie oportunidades. Não sabe por onde e como começar? A história do Felipe Mello pode ser um farol.
DA CIDADE “ALTA” PARA AS OPORTUNIDADES
“Eu tenho 33 anos, sou pai, casado, nascido e criado em comunidade, no morro da Penha em Santos. Eu já tive vários empregos: banhista de cães, ajudante de marcenaria, feirante – a maior das minhas “escolas” – trabalhei como CLT em dupla jornada por cerca de três anos: na Unimonte e em uma concessionária de carros. Na Unimonte, eu entrei por meio de um curso preparatório do Centro Profissionalizante Santo Antônio. Com este trabalho eu consegui estudar e fiz um ano de faculdade gratuita. O restante do curso, foi pago com bolsas parciais que variaram de 30% à 70%. Foi desta forma que obtive meu diploma de Publicidade e Propaganda”, relembra Felipe. O jovem acumulou experiência até virar dono do próprio negócio.
A empresa de Felipe atua como ponte entre profissionais experientes na coquetelaria como bartenders, mixologistas e garçons e os eventos. A formação como publicitário foi fundamental para ele chegar ao sucesso à frente da Connect Bartenders.
“MAR CALMO NÃO FAZ BOM MARINHEIRO”

Felipe começou a empreender após o convite de um amigo: “Ele propôs sociedade, mas eu não tinha grana para investir. Foi quando ele me disse: ‘Contribua com R$ 3 mil que você vai me dar com o seu trabalho.’ Eu aceitei. Fui trabalhando mas não recebia até alcançar este valor. Assim, eu me tornei sócio da Connect Bartenders. Tudo o que eu aprendi na faculdade, aplicava na empresa. Na época, nós chegamos a viralizar no Facebook com postagens de drinks autorais que fazíamos. Usávamos Nutella e açaí, ingredientes que nem fazem parte da coquetelaria, mas fomos assertivos ao inovarmos”, explica.
Virar dono de negócio não é fácil. Sempre trago relatos sobre isso, mas a forma como os desafios são encarado faz toda a diferença. Felipe enfrentou a dupla jornada e conciliava a empresa com o emprego na concessionária de carros. “Muitas vezes, eu descansava dentro dos veículos”, conta.
A sociedade na empresa começou com um a dois eventos a cada dois meses. O primeiro local a gerar oportunidades foi o Espaço Bloom, em São Vicente. “Na época guardávamos nossos materiais em um lugar muito pequeno, atrás de uma portinha de ferro no morro e fomos progredindo. Eu sempre gostei da parte comercial, minha grande habilidade até hoje, e isso nos ajudou muito”.
Desde que entrou na sociedade, a Connect Bartenders já realizou mais de cinco mil eventos. “No primeiro ano, foram mais de 100 festas, no segundo 330 e no início do terceiro ano quase 400 festas entregues. Tudo, graças a um departamento comercial forte. Eu sempre fui apaixonado por vendas. E assim, vendemos milhões de reais em festas. A nossa primeira sede foi no canal 3, em Santos, e fomos evoluindo. Eu aprendi muito com a minha mentora que, infelizmente não está mais entre nós, a Simone Zaros. Façamos acontecer”, explica.
A sociedade durou quatro anos. Em 2015, Felipe propôs a compra da outra parte da sociedade. “Eu entrei com R$ 3 mil com trabalho e, quatro anos depois, comprei a empresa por cerca de R$ 120 mil. Fiz empréstimos com minha sogra, minha prima, peguei uns trocados guardados e, com esta rede de apoio, comprei a parte do meu sócio. Em pouco tempo, paguei todo mundo”, revela.
A Connect Bartenders realiza entre 300 e 380 festas ao ano, mas mudou o modelo de gestão. “Estamos diminuindo este total e ao mesmo tempo aumentando a receita. De que forma? Inauguramos um novo espaço – o Reserva Connect. Além de ser o nosso showroom, realizamos pequenos eventos para até 40 pessoas. É um local criado para conexões, networking e encantamento. Mudamos a ideia da empresa de bar e nos tornamos uma empresa que gera experiências para o contratante. Prezamos os momentos desde que o cliente prova o coquetel, não só o paladar mas também o cheiro, inclusive do ambiente. O lugar está muito lindo. De 2024 para 2025, já havíamos dobrado o nosso ticket médio e realizado dez eventos a menos. Foi um ano fantástico e vamos seguir a mesma performance”, conta.
Segredo é priorizar conexões
A empresa de Felipe coleciona cases de sucesso. Já trabalhou em grandes eventos de jogadores e artistas famosos, entre eles, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Ana Carolina, Lulu Santos, Titãs, Capital Inicial, Neymar, Cafu, entre muitos outros.
O motivo de tudo dar certo já está no nome da empresa: conexão! A essência do Connect Bartenders é pessoas se conectando com pessoas. Os colaboradores também fazem parte desta filosofia. Enquanto muitos empresas esquecem que 90% do sucesso é a mão-de-obra, Felipe se preocupa em manter colabores felizes. “Eu desafio qualquer empresa do meu segmento a ter uma equipe tão boa quanto à minha. A Connect é o que eu, Felipe, prego como princípio, ideologia e negócio. Os nossos colaboradores e líderes sabem que primeiro devemos nos preocupar com pessoas depois com o produto. O nosso verdadeiro diferencial são os colaboradores e as pessoas que estão conosco e propagam o nosso trabalho. Já entregamos simultaneamente dez festas. Em um final de semana foram 24 eventos. É um volume muito grande. São eventos que reuniram entre 10 pessoas a 6 mil convidados. Eu tenho um time de 250 colaboradores. Sou grato pela minha equipe. No trabalho que eu desenvolvo não só sou eu quem ganho. Todo mundo consegue monetizar, ganhar um bom pró-labore e levar o sustento adequado para sua família”, conta.



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