Cena

Costa Villar transforma garagem de casa em espaço de resistência

22/05/2025 Isabela Marangoni
Fernando Yokota

Em uma rua sem saída no bairro José Menino, em Santos, existe um espaço vivo, vibrante e completamente fora do circuito tradicional das artes – uma garagem. Ali, o artista Costa Villar escancarou os portões de casa e da alma para dar forma ao Coletivo Garage. Mais do que um ateliê, o local funciona como trincheira criativa, ponto de encontro e território de resistência estética e afetiva.

Tudo começou quando sua esposa o “intimou” a descer com seus materiais de arte para o térreo da casa. Foi o empurrão que faltava. Ele passou a pintar ali, receber artistas, montar exposições e, pouco a pouco, erguer um espaço alternativo de criação com os recursos que tinha — e os que encontrava pelas ruas.

Sem patrocínio, apoio institucional ou o respaldo da elite artística da região, Villar improvisou sua galeria com materiais descartados: papéis de supermercado, telas achadas no lixo limpo, sobras de madeira. “É uma rebeldia”, diz. “Material de arte é caro. Não sou da elite. Pinto com a mão, com o dedo, quando não tenho pincel”.

Mas mesmo com muita paixão, Villar se queixa da dificuldade que é fazer arte em Santos. “Não tem galeria. Só se tiver grana. Só entra a elite”. Ele comenta o descaso do poder público com artistas locais e cobra mais incentivo, divulgação e espaço para quem trabalha fora dos grandes círculos. “As autoridades particulares podiam dar uma força, se unir em prol da arte. A gente quer ser visto. Só isso”.

Agora com sete artistas envolvidos, o Coletivo Garage se prepara para uma nova exposição, desta vez no Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, neste sábado (24). O tema nasceu num lampejo noturno. “De madrugada, sonhei com uma frase: ‘O que existe em mim dentro de você’”.

A frase aparentemente sem sentido foi ganhando vida com as interpretações dos colegas. “Um deles disse: ‘Eu me casei com uma mulher que eu adorava. O que existia em mim era um embrião. Foi para ela e nasceu nosso filho’”.

Sua própria contribuição para o tema da exposição é uma obra que mistura pintura, escultura e narrativa. “É uma história em quadrinhos sobre a vida. Tem uma aranha armada, os perigos, os pássaros colados no teto, o barqueiro que leva para o outro lado. E o anjo que te recebe. É minha visão sobre o que existe em mim dentro de você”. Cada obra tem um significado profundo, abordando a jornada da vida, da chegada ao mundo até a travessia final.

A exposição também abraça causas sociais, como a inclusão de artistas ligados ao TEA (Transtorno do Espectro Autista) e músicos de rua. “Nunca gostei de fazer só mostra de pintura. Vai ter um músico de rua argentino, que vai tocar blues e jazz. Tudo gratuito. A gente luta para conseguir espaço”.

Villar se recusa a transformar seu espaço em comércio. Lá, as obras não estão à venda. “Aqui é underground. É meio marginal. Só entra quem conhece, quem troca ideia. Não é galeria. É afeto”. Apesar da potência artística, ele reconhece o desinteresse do público local. “Santos é linda demais. O povo prefere a praia, o pastel na feira. Arte faz pensar, e ninguém quer pensar”.

Mas ele não desiste. Abre a garagem todos os dias, de segunda a segunda. E sonha alto: quer uma Bienal de volta à cidade, políticas públicas que resgatem os salões de arte dos anos 60 e incentivem a criação e o encontro.

Com humor, crítica e sensibilidade, Costa Villar transforma lixo em arte e espaços esquecidos em núcleos de resistência cultural. A exposição “O que existe em mim dentro de você” ficará em cartaz até o dia 20 de junho, com entrada gratuita e um convite silencioso à reflexão: o que há de mim em você — e de você em mim?

SERVIÇO

Quando: de 24 de maio a 20 de junho
Onde: Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente | Rua Frei Gaspar, 280 – Centro
Horário: a partir das 15 horas
Entrada gratuita