
Pesquisa demonstrou que idosos que jogaram o game registraram melhoras no cérebro
Em 2022, a pandemia interrompeu o Programa Cérebro Ativo, patrocinado pela Prefeitura de Santos O programa instruía pessoas idosas para criar seus próprios jogos eletrônicos. Não se tratava apenas de diversão, Estudos em andamento na época mostravam que a criação de games exercitava o cérebro, afastando a demência e a doença de Alzheimer – dois fantasmas que assustam boa parte das pessoas idosas. Santos e a Baixada Santista têm, proporcionalmente, a maior população idosa de todo o Estado de São Paulo. Os games ainda tinham a vantagem de propiciar a relação entre as gerações, dentro e fora da família, mas o programa foi interrompido pela Covid-19.
Quase à mesma época, no Canadá, pesquisadores estavam prestes a concluir a terceira etapa de um experimento científico que testava a influência do game mais vendido de todos os tempos – o Super Mario 64 – no hipocampo, uma área nobre do cérebro. O que era uma suposição – manter o cérebro ativo, para preservá-lo, agora, estava se consolidando como verdade científica, na figura simpática de Mario, o encanador bigodudo de origem italiana que vive em Nova York.
Mario e seu irmão, Luigi, enfrentam malfeitores, salvam princesas, atravessam abismos, e, de quebra, decifram enigmas e desafios de lógica para cumprir suas missões. A garotada os adora. Os vendedores de games também. Duas das dez plataformas de maior vendagem da Nintendo de todos os tempos trazem Mario como herói.
O estudo canadense escolheu Super Mario 64 para o experimento, reunindo pesquisadores do Departamento de Psicologia, do Centro de Pesquisa em Neuropsicologia e Cognição, da Universidade de Montreal, e do Laboratório Internacional de Pesquisa sobre Cérebro, Música e Som, também de Montreal. O trabalho concluiu que os games, apesar das dificuldades de algumas pessoas idosas com o controle do joystick, ajuda na prevenção de deficiências cognitivas leves, que surgem com o avanço da idade, e, mais importante, mantém à distância a doença de Alzheimer.
Como foi o trabalho chancelado pela PLOS
O trabalho foi publicado pela revista eletrônica “PLOS One”, da ONG PLOS (Public Library of Science), dos EUA, aberta para a publicação de qualquer trabalho científico – desde que seus autores aceitem submetê-lo à revisão de metodologia e ética de outros pesquisadores. “No Brasil, o site da PLOS é muito valorizado nas citações nos cursos de pós-graduação”, confirma Abel Packer, diretor do Programa SciELO-/Fapesp.
Os pesquisadores canadenses selecionaram 33 pessoas saudáveis, com idade entre 55 e 75 anos, depois separadas em três grupos. A elas cabia escolher entre aprender a jogar Super Mario 64; ou aprender a tocar piano pela primeira vez na vida; ou alternar livremente entre os dois. Em contrapartida, assumiam o compromisso de brincar com o game 30 minutos por dia, durante seis meses, e passar por um exame de ressonância magnética antes e depois de cada etapa. As dificuldades de controle do joystick foram reduzidas com aulas extras, antes do início do experimento.
“A boa notícia é que podemos reverter o atrofiamento”
Os exames de ressonância magnética mostrariam principalmente o hipocampo, uma área do cérebro que evidencia qualquer mudança na substância cinzenta, ou massa cinzenta, o conjunto de células nervosas do hipocampo, que é responsável pela memória, pelas emoções e pela noção de espaço e movimento. A substância cinzenta tem a capacidade de mudar de tamanho durante a vida e, nas pessoas idosas, tende a ser menor e correr o risco de atrofiar.
Mas ela pode se recuperar e ganhar corpo novamente, se for estimulada.
O resultado do experimento com o Super Mario 64 foi taxativo: somente o grupo dedicado ao aprendizado do game teve aumento no volume da substância cinzenta no hipocampo. Todos os participantes do grupo tiveram melhora nas memórias recentes.
Greg West, chefe do Departamento de Psicologia e do Centro de Pesquisa em Neuropsicologia e Cognição da Universidade de Montreal, que coordenou o estudo, classificou os resultados como animadores, “porque ficou comprovado que, também ao aprender coisas novas, a substância cinzenta cresce de tamanho”. “A boa notícia é que podemos reverter o atrofiamento, porque games como o Super Mario 64 ativam o hipocampo”, completa sua colega de equipe, a professora de psicologia, Sylvie Belleville. “Descobertas como essa podem dar origem a novas pesquisas sobre a doença de Alzheimer”, anima-se ela.


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