Cena

“Cabaças de Axé – Orixás em Nós” leva arte e espiritualidade à ACS

15/01/2026 Isabela Marangoni
Divulgação/ACS

A Associação Comercial de Santos (ACS), no Centro Histórico, abre a programação cultural de 2026 com uma exposição que entre laça arte, espiritualidade e posicionamento político. Em cartaz até 31 de janeiro, a mostra “CABAÇAS DE AXÉ – Orixás em Nós”, da artista visual Andressa Oliveira, apresenta esculturas feitas com cabaças que chegam a 2,5 metros de altura. Entre fios, miçangas e outros elementos simbólicos, as obras evocam a presença dos orixás no cotidiano e transformam o espaço expositivo em um território de encontro e reverência.

A exposição é resultado de um processo iniciado em 2020, quando Andressa passou a trabalhar com cabaças em peças de caráter mais comercial, que garantiam o sustento de seu ateliê. O trabalho ganhou projeção, figurou em revistas como Casa Vogue e Casa Jardim e passou a integrar residências de diferentes públicos. Com o tempo, no entanto, a artista sentiu a necessidade de ampliar essa produção para um campo mais autoral. “Eu nunca tinha levado as cabaças para uma escala maior, pensando nelas como instalação”, conta.

A virada aconteceu em 2024, no último dia do prazo de inscrição do Edital de Chamamento Público nº 004/2024 da Secretaria de Cultura, viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Andressa decidiu escrever um projeto próprio — e a proposta foi aprovada.

Inspiradas na simbologia sagrada das cabaças e na estética ritualística das religiões de matriz africana e afro-brasileira, as obras dialogam diretamente com a Umbanda e com a ancestralidade da artista. O conjunto cria um ambiente de contemplação e respeito, convidando o público a uma experiência sensorial que conecta estética, espiritualidade e memória coletiva, ao mesmo tempo em que reafirma a força simbólica e a legitimidade dessas religiões no Brasil.

A relação de Andressa com a Umbanda nasceu a partir do próprio processo criativo. Ao pesquisar o uso simbólico e ritual das cabaças, decidiu se aproximar de um terreiro. “Fui atrás da Umbanda por causa das cabaças. Hoje faço parte da corrente e tenho um vínculo muito forte com os orixás e os guias”, relata.

Inicialmente, as esculturas teriam entre três e quatro metros de altura e seriam exibidas nas gale rias do Teatro Municipal Braz Cubas. Com o espaço em reforma, o projeto precisou ser adaptado e encontrou a nova casa na ACS. A mudança exigiu ajustes expográficos, mas também gerou um novo impacto: posicionadas na altura do corpo humano, as obras estabelecem uma relação direta de presença e encontro. “Dá a impressão de que você está de frente para o orixá. Dá para sentir a energia, a potência”, descreve a artista.

Mais do que uma homenagem, a exposição se afirma como um gesto de visibilidade e enfrentamento à intolerância religiosa. “A arte é sensorial. Mesmo quem não tem relação com a religião acaba sendo tocado. Isso já quebra um preconceito de imediato”, afirma Andressa. Para ela, não se trata de convencer, mas de promover respeito. “As religiões afro-brasileiras foram fundadas por pessoas negras. Não são para todo mundo, mas quem está disposto a quebrar preconceitos pode buscar conhecimento”.

O caráter político da mostra também se expressa na ocupação do Centro Histórico. “Esse território carrega marcas de exploração, sofrimento e resistência, com presença de quilombos. Expor aqui é simbólico. É ocupação, é acesso”, destaca. O interesse do público se refle te no livro de visitas, quase completo poucos dias após a abertura.

A relação com o território atravessa toda a trajetória da artista. Andressa é uma das fundadoras do movimento Cena Cidade, que mapeia ateliês e espaços culturais da região, e idealizadora da feira gráfica OBAOBA, que reúne artistas de diferentes partes do país. “Os centros históricos sempre concentraram manifestações artísticas. A gente quer que o centro seja vivido”.

Ao resumir o desejo para quem visita a exposição, a artista aponta para a conexão e a reflexão. “Que as pessoas saiam inspiradas, provoca das a buscar conhecimento, a respeitar e conviver. Existe espaço para todas as formas de expressão artística. É assim que a gente cresce e se transforma”.