
Morreu ontem no Rio de Janeiro, a atriz e comediante Berta Loran, aos 99 anos. O anúncio encerra quase um século de uma vida marcada por fugas, reinvenções e aplausos, mas abre espaço para revisitar a trajetória de uma artista que fez do humor um modo de existir. Mais do que a “aluna” da Escolinha do Professor Raimundo, papel que a tornou popular em sua fase mais recente, Berta atravessou sete décadas de carreira deixando uma galeria de personagens que explicam, com risadas, as contradições do Brasil.
Berta nasceu em 23 de março de 1926, em Varsóvia, na Polônia, com o nome de Basza Ajs. Filha de judeus, cresceu em um lar humilde, num país que pouco tempo depois seria tomado pelo avanço nazista. Em 1937, quando ela tinha apenas 11 anos, a família decidiu partir. Embarcaram para o Brasil em busca de sobrevivência e de um futuro que lhes fora negado em sua terra natal.
Berta costumava lembrar, já mais velha, das condições duras da infância: o frio, a pobreza, o convívio apertado com muitos parentes. Tinha memórias do medo que antecedeu a fuga, mas também da solidariedade que manteve a família unida. Chegou ao Rio de Janeiro como refugiada, trazendo no corpo a experiência da diáspora judaica e no espírito a força para se reinventar.
O teatro foi seu primeiro refúgio. Seu pai, alfaiate, também se arriscava como ator amador nas peças em iídiche da comunidade judaica, e a filha não demorou a seguir o mesmo caminho. Atuou em peças junto com a irmã, nos palcos improvisados das associações culturais do Rio.
O nome artístico veio nesse período: Basza Ajs parecia estranho aos ouvidos brasileiros, e ela decidiu adotar “Berta” para facilitar, acrescentando “Loran”, sugestão que brincava com seus cabelos loiros. A nova identidade foi o passaporte definitivo para a profissionalização.
Nos anos 1950, Berta Loran estreou no teatro de revista, gênero popular que misturava música, sátira e sensualidade. Rapidamente ganhou espaço no Teatro Carlos Gomes e em outras casas do Rio de Janeiro. Logo passou para o cinema, participando de comédias musicais que marcaram a época, como “Sinfonia Carioca”, Papai Fanfarrão, Garotas e Samba e O Cantor e a Bailarina. Em 1957, atravessou o Atlântico e foi para Portugal, onde integrou a peça Fogo no Pandeiro e acabou ficando por seis anos. Lá consolidou seu talento, sendo reconhecida pelo público português como uma atriz versátil e carismática.
De volta ao Brasil, mergulhou definitivamente na televisão. Desde a década de 1960, esteve em praticamente todos os grandes humorísticos da TV brasileira. Fez parte de Balança Mas Não Cai, Faça Humor, Não Faça Guerra, Satiricom e Planeta dos Homens. Participou de esquetes em Viva o Gordo (que foi onde a conheci), de Jô Soares, e mais tarde integrou o elenco fixo da Escolinha do Professor Raimundo, onde interpretava a aluna Fofoqueira, sempre com uma fala atravessada e um comentário espirituoso.
Este papel acabou se tornando o mais lembrado, mas foi apenas a ponta mais acessível de uma carreira que colecionou centenas de personagens. Também esteve no Zorra Total, mantendo-se ativa em uma televisão que constantemente renovava seus formatos.
Berta transitou ainda pelas novelas, mostrando que não era apenas uma comediante. Esteve em Amor com Amor se Paga, nos anos 1980, e décadas depois em Ti Ti Ti, Cama de Gato, Cordel Encantado e A Dona do Pedaço. Seu rosto e sua voz faziam parte do imaginário popular: era aquela atriz sempre pronta para arrancar uma gargalhada, mas também capaz de emocionar com naturalidade.
A vida pessoal de Berta teve tanto de drama quanto de comédia. Casou-se quatro vezes. O primeiro casamento, com um ator judeu bem mais velho, foi mais uma oportunidade de inserção profissional do que um amor duradouro. Enfrentou duas gestações interrompidas, escolhas difíceis que a marcaram para sempre. O segundo marido foi um comerciante paulista de origem polonesa, com quem ficou até o fim dos anos 1980. Depois vieram novas uniões, sempre acompanhadas do seu humor afiado, que a impedia de se levar demasiadamente a sério. Apesar das perdas e separações, manteve-se ativa, cheia de histórias para contar. Não teve filhos, mas cultivou ao longo da vida uma rede de amigos, colegas e fãs que a tratavam como parte da família.
O reconhecimento formal veio aos 90 anos, quando recebeu uma biografia, um documentário e uma exposição fotográfica celebrando sua trajetória. Até aquele momento, já tinha dado vida a mais de dois mil personagens, entre teatro, cinema e televisão. Era um número que impressionava, mas que não traduzia completamente o alcance do que fazia: Berta não interpretava apenas tipos cômicos, ela oferecia ao público um espelho divertido de si mesmo, uma versão exagerada de nossas manias e defeitos, sempre com ternura e malícia.
Sua história é, acima de tudo, de sobrevivência. Sobreviveu à guerra, à pobreza, às dificuldades de ser mulher em um meio artístico dominado por homens, às oscilações da televisão e às mudanças de gosto do público. Em cada fase, encontrou um jeito de se reinventar. Sua gargalhada atravessou gerações, e sua presença se tornou um fio de continuidade no humor brasileiro, dos tempos do rádio até a era da internet.
Berta quase alcançou um século inteiro de vida. Viveu intensamente, sem jamais abandonar o palco. Fez do riso sua arma contra o medo, sua forma de se vingar do destino que tentou lhe roubar a infância. Hoje, sua partida deixa um vazio na televisão, mas também uma herança inapagável.
Cada vez que alguém repetir uma piada atravessada, cada vez que um humorista usar o exagero para falar de verdades doloridas, haverá ali um pouco do espírito de Berta Loran, a polonesa que se fez brasileira, a refugiada que se tornou estrela, a mulher que transformou as sombras de sua história em luz.


Deixe um comentário