
Hoje eu convido você a uma reflexão profunda sobre como as nossas ações, muitas vezes as mais simples, podem impactar as futuras gerações e a nossa qualidade de vida no planeta. Você já olhou para o lixo com outras perspectivas?
Esta é uma provocação que lhe faço. Agora, pego emprestada uma palavra pra temperar essa discussão saudável: inovação. Olhe para as sílabas! Você vai encontrar outras duas palavrinhas: nova e ação. Inovação não é sobre tecnologia e nem sobre criar algo novo. É sobre gerar valor através de uma disruptura ou mudança de sentido, ideias, produtos e processos, ou seja, é sobre ter uma nova ação diante de uma situação.
Em 2015, a ONU (Organização das Nações Unidas), criou um conjunto de 17 metas globais que formam parte da Agenda 2030 – os ODS´s (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Até daqui a cinco anos, esta soma de ações visa proteger o planeta, erradicar a pobreza, garantir paz e a prosperidade.
Diante de tudo isso, eu te apresento uma empreendedora que inovou ao ter um novo olhar para as sacas de café.
RECICLAR É AGREGAR VALOR

O Brasil é líder mundial na produção e exportação de café há décadas. A estimativa deste mês é que a produção nacional totalize 56,5 milhões de sacas de 60kg. O grão representa mais de um terço da produção global.
Agora, imagine milhões de sacas de juta, uma fibra 100% vegetal, renovável e biodegradável, cultivada principalmente na região amazônica do país, que depois de usadas, são jogadas no lixo.
Apesar de já possuir um viés sustentável, as sacas de café ganham uma conotação ainda mais valiosa quando passam pela inovação proposta pela Gisele Domingues, uma empreendedora que vive na principal região onde é escoado todo o café produzido no Brasil – o Porto de Santos. Ela criou acessórios com as sacas de café que iam para o lixo.
Professora exemplo de sustentabilidade

“Eu era professora e me tornei coordenadora de uma escola. Por muitos anos, trabalhei com crianças e jovens e foi um privilégio, principalmente, atuar na inclusão. Eu aprendi demais, demais, demais. Isso me fez ser uma pessoa melhor. Antes de eu me aposentar, ainda no ambiente escolar, eu analisava o que eu faria depois de encerrar minhas atividades como educadora. Foi quando lembrei da minha mãe que costurava vestidos para noivas e madrinhas de casamento. Eu a ajudava nesta tarefa.”, conta Gisele emocionada ao lembrar do passado.
A artesã guarda na memória as caudas de vestidos para noivas, bainhas e apliques bordados que costurava. Todos os processos, bem manuais, ela aprendeu com a mãe e a tia que trabalhavam juntas. Mas foi a técnica upcyling que a levou para um caminho especial.
“Eu cheguei a ter uma pequena confecção com a minha tia, depois paramos e eu decidi continuar na costura sozinha. Foi quando comecei a produzir bolsas com retalhos de tecidos e jeans. Eu vendia para amigos. Até que eu conheci uma pessoa, a Valquiria Klimeika, que fazia feltro e ela me apresentou a Associação Fuxico da Arte. A partir dali, comecei a participar de feiras e bazares. Um belo dia, eu vi um amigo que atua no ramo de café descartar as sacas. Foi quando passei a usar este material para produzir as ecobags e, posteriormente, bolsas, malas e mochilas.”, explica a artesã que confecciona as bolsas com sacas de café há pouco mais de três anos.
Eu conheci o trabalho lindo da Gisele em uma das edições da Frontaria Criativa, na Casa da Frontaria Azulejada no Centro de Santos, e foi amor à primeira vista. Além de costureira, apaixonada pelo setor, eu valorizo a criatividade e sobretudo a arte de reciclar materiais. Para conhecer as peças produzidas pela Gisele, que ajudam nas práticas ODS, eu te convido a segui-la nas redes sociais. A página do Instagram dela é @dominguesgiselemachado.
Pra encerrar, chamo sua atenção para um posicionamento da Gisele muito importante e que precisa estar na consciência de muita gente que ainda enxerga o artesanato como uma “lembrancinha”.
“Artesanato não é só sobre uma coisinha que você compra e é baratinho. Existe um trabalho, existe todo um estudo antes de fazer qualquer peça. Então, eu gostaria muito que as pessoas valorizassem as peças de quem usa as mãos para confeccionar. Nós não produzimos apenas porque amamos o que fazemos, mas também vivemos desta arte. As peças têm valor agregado: trabalho, tempo, pesquisa, materiais, técnicas.” Fica a reflexão. Pense nisto!



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