Longevidade

Apesar dos tabus, conversar sobre sexo é fundamental. Vamos?

19/07/2025 Alceu Nader
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O jornalista Alceu Nader bateu um papo com três mulheres que encaram o assunto de frente

Quase ninguém fala sobre isso, nem mesmo com a família ou os amigos mais próximos. Não é proibido nem ilegal, mas às vezes parece que é. A gente resolveu
chamar isso de tabu. Só que esse silêncio não ajuda em nenhuma fase da vida — e pesa ainda mais quando se envelhece. Nesta conversa, três mulheres de Santos,
todas com mais de 60 anos, decidem quebrar o silêncio. O tema é sexualidade. Participam Vera Leon, jornalista em plena atividade; Márcia Atik, psicóloga e sexóloga; e Lilian Wendy, médica ginecologista e sexóloga. As três encaram o tabu de frente.

Lílian Wendy é médica ginecologista

Vera Leon é jornalista e analista

Márcia Atik é psicóloga e sexóloga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem tem mais de 65 anos, viu a revolução sexual dos anos 60 e 70, viveu a pandemia da aids, que ainda não terminou e assistiu à revolução feminina. Três momentos históricos em que se teve a ocasião para se falar sobre sexualidade.

O jovem transformador de ontem envelheceu e o assunto sexo continuou escondido. Por quê?
Márcia Atik: Vou levar pedrada pelo que vou falar, mas vou correr o risco: falta educação sexual. Não para ensinar como se faz, mas para falar da importância da sexualidade nas diversas fases da vida, e de como homens e mulheres precisam entender do que se trata desde a infância. Falar do amor, da convivência, da intimidade, do prazer.

Vera Leon: Acontece justamente o contrário. Martelaram na nossa cabeça que sexo é perigoso, pecado imperdoável, o prazer é proibido. Por isso, o tabu se mantém.

Doutora Lilian, quais alterações ocorrem no corpo do homem e da mulher durante o envelhecimento?
Lilian Wendy: Várias. Além da própria sexualidade, muda a parte física também. Começam a aparecer dores que antes não existiam, impedindo movimentos e posições. O fôlego também não é mais o mesmo, sem contar os problemas da própria velhice. No homem, a sexualidade é afetada principalmente por problemas circulatórios, que podem diminuir a ereção e a rigidez do pênis. Costumo brincar que o homem mais se parece com o fogão a gás e a mulher como o fogão à lenha. Um acende e apaga rapidinho, o outro custa pra acender e apagar. E isso se acentua na velhice.

E por quais mudanças passa a mulher?
Lilian: Para elas, os hormônios mudam -e podem ser fonte de problemas. Não somos tão visuais, mas mais auditivas e táteis. Para a mulher, a boa relação sexual não começa necessariamente na cama. Pode começa r no café da manhã, quando ouve algo que lhe faz bem, ou ganha um beijo. Quanto aos hormônios, ela perde estrógeno durante a menopausa e tem menos desejo. Cabe ao homem estimular mais. O mesmo mecanismo que faz o homem ter ereção, faz a mulher ter lubrificação, e a mulher sempre demora mais do que no homem. Nem sempre o homem espera. Então, dói. Para o sexo na velhice, há casais que se adaptam e têm sexo a vida inteira, porque preservaram a conexão. As mudanças físicas aconteceram, mas foram acompanhadas pelo emocional.

Márcia: A qualidade da relação que a Lilian diz mantém o desejo da mulher. Às vezes, um casamento de 40 anos, entra no piloto automático e neutraliza o desejo.
Nesta fase, insistimos muito com mulheres mais velhas para que tenham conhecimento do próprio corpo, porque a ela não foi dado o direito de conhecer, brincar, usar, mesmo que não tenha um parceiro. Usar brinquedinhos, se masturbar, ter prazer sozinha, não como um passatempo sem finalidade, mas para buscar o autoconhecimento e manter o sexo vivo.

Vera: Isso foi proibido para as mulheres na educação, sabe? Devemos incentivar mulheres mais velhas que estão sem parceria a se tocar e se conhecerem, a brincar com seu corpo, a redescobrir o prazer e o orgasmo. O sexo traz uma melhor qualidade de vida.

Márcia: A gente fala de qualidade de vida, alimentação, atividade física etc., mas se esquece que o desenvolvimento sexual faz parte da qualidade de vida. Não pode depender de ter ou não ter uma parceria. Por isso, é importante dizer que a sexualidade tem de estar presente na vida do idoso, mesmo que não tenha parceria.

Vera: Há mais mulheres maduras sós, porque vivem mais do que os maridos. Há também mais viúvas sem uma parceria. O triste disso tudo é que, quando um grupo de mulheres se reúne, não há uma sequer que fale desse assunto. Pra mim, é a própria negação da sexualidade. Escrevi uma matéria há alguns anos, quando Fernanda Montenegro veio a Santos com a peça “Dona doida”, da poeta Adélia Prado. Gostei tanto, que acabei comprando a antologia. Encontrei um verso ali em que ela diz tudo: “Deus não me fez até a cintura pro diabo fazer o resto. Ou tudo é bento ou nada é bento”. A gente insiste em não querer ver essa realidade, e então vem a diabetes, a enxaqueca, a insônia… Isso tudo porque há uma energia represada, negada, pior, insultada, num sentido de, ai nossa!, se eu tiver um orgasmo agora só, o que vai acontecer comigo? E o pior é que não se toca no assunto! As mulheres preferem falar sobre a invasão de um exame de colonoscopia, todo aquele trabalho prévio horrível, do que falar a própria sexualidade.