
Conversar com o médico Alexandre Kalache, pioneiro no estudo do envelhecimento no Brasil, é abrir portas geralmente trancadas — porque incomodam, doem, expõem feridas que não cicatrizam. Formado em Medicina em 1970, Kalache dedica sua trajetória à longevidade. Foi um dos primeiros a enxergar o envelhecimento populacional como fenômeno mundial, apontando tanto riscos quanto potencialidades.
Suas contribuições foram fundamentais para romper com o paradigma tradicional sobre a velhice e são reconhecidas internacionalmente. Defensor incansável dos direitos dos idosos, consultor global e criador do conceito de Cidade Amiga do Idoso, Kalache possui um olhar crítico – e muitas vezes sofrido – sobre o envelhecer. Em outubro, ele lança um novo livro sobre suas experiências de vida para celebrar os 50 anos na Gerontologia, e sente que é a hora de deixar um legado.
Confira a seguir a entrevista exclusiva ao Jornal da Orla:
Ver tanta gente falando sobre longevidade é bom?
O copo está meio cheio ou meio vazio. Por um lado, é positivo que se fale mais sobre longevidade e envelhecimento – a ficha começa a cair. Por outro, há muitos charlatães. E posso afirmar isso com propriedade, afinal, estudo o tema há cerca de 50 anos. No começo, era uma estrada de chão batido. Não havia holofotes, a mídia não se interessava. Hoje, há um certo exagero, como na supervalorização da chamada “economia prateada”. Esse conceito pode fazer sentido em países como Canadá ou Bélgica, onde há bolhas de riqueza. Mas, mesmo nesses países, a desigualdade é brutal. Os Estados Unidos, por exemplo, há 40 anos tinham uma das maiores expectativas de vida do mundo. Hoje ocupam a 42ª posição. A desigualdade está crescendo. Uma coisa é viver em Nova York com luxo e grifes; outra é ser negro, imigrante, homossexual e morar na periferia da mesma cidade.
A tal economia prateada não existe?
Assusta-me ver tanta gente falando de “silvereconomy” como se todos vivessem no Jardim Europa. Não é assim. A diferença de expectativa de vida em São Paulo entre bairros nobres e periferia ultrapassa 20 anos. Essa “economia prateada” é, na verdade, uma economia enferrujada. Está gasta. As pessoas não vivem a velhice — sobrevivem até ela. E, muitas vezes, nem isso. A pandemia escancarou que não é preciso ter 90 anos para estar no grupo de risco. Com 57 já se pode morrer, sobretudo com hipertensão, diabetes, obesidade. E a obesidade hoje, no Brasil, atinge principalmente os mais pobres, que só conseguem se alimentar com carboidratos baratos. Não dá para generalizar como se tudo estivesse bem. O envelhecimento tem uma face feia, feminina, negra, parda, marcada pelo idadismo. A velhice, para muitos, não é bonita.
Os jovens de hoje, entre 40 e 50 anos, vão envelhecer melhor?
Não. Não há políticas públicas que incentivem o aprendizado ao longo da vida. E, para envelhecer com dignidade, é preciso estar capacitado para continuar atuando no mercado de trabalho. O esforço individual importa, mas muita gente sequer tem tempo para isso nas grandes cidades — enfrentando transporte público massacrante, apenas tentando sobreviver. Até no metrô, na hora do rush, idosos são deixados de lado. Temos os “nem-nem” (jovens entre 19 e 30 anos que nem estudam nem trabalham). Você acredita que essas pessoas estarão preparadas para envelhecer ou cuidar dos idosos da própria família? E há ainda os “sem-sem”: pessoas que não estudam nem trabalham mais, excluídas pela tecnologia.
E em outros países, o envelhecer será diferente?
Num mundo em que tudo está cada vez mais sendo feito por robôs, onde daqui a pouco algumas especialidades médicas serão substituídas por diagnósticos e tratamentos feitos por máquinas, como vai ser? Na China as fábricas de automóveis funcionam 24 horas e não gastam eletricidade, robôs não precisam de luz. No Japão você tem um pet que robô, sacode a perninha quando você chama. Costumam dizer que no Oriente os idosos são mais respeitados, mas não é bem assim. Fiquei horrorizado ao ler que cerca de 160 mil japoneses velhos morrem em casa, sozinhos, e só se descobre muitas vezes dias depois, quando o vizinho reclama do mau cheiro. Por isso não posso achar que quem tem hoje 35, 50 ou 60 anos vai envelhecer bem. Vamos continuar com muita pobreza, desigualdade, iniquidade. Ainda bem que temos a nossa pedra salvadora que é o SUS, viva o SUS, é um direito civilizatório que infelizmente está sob ameaça.
Envelhecer bem é cada vez mais difícil?
Sim. Envelhecemos conforme aquilo que vivemos: as experiências, o que comemos, o que tivemos ou não. Saúde é construída no cotidiano: onde você mora, trabalha, como se locomove, como ama, como se diverte. E as desigualdades só crescem. Muitos preferem falar da economia prateada como se tudo fosse cor-de-rosa, mas a realidade é outra. O brasileiro é audacioso: apesar de tudo, continua envelhecendo — e exigindo seus direitos.
O conceito de Cidade Amiga do Idoso criado pelo senhor, se expandiu?
Sim. Quando eu era diretor da OMS, criamos esse movimento. Hoje prefiro usar “Cidade Amiga da Idade” — Age Friendly City. Se o ônibus for acessível para um idoso, será também para uma gestante, um jovem com mochila, uma pessoa com deficiência, alguém com o joelho machucado. Mas, veja o Rio: na periferia, os ônibus sequer têm ar-condicionado, mesmo com sensação térmica de 60 graus. As barreiras são muitas. Temos um Estatuto do Idoso maravilhoso, mas que não é respeitado. Precisa sair do papel e ser aplicado na prática.
Envelhecer é um susto?
De certa forma, sim. É natural sentir medo: de perder a autonomia, de ser superado, de morrer. Sempre digo: quem quer ser bem tratado na velhice, precisa rever seus preconceitos e valorizar quem está ao seu lado. Se um dia você ficar dependente, quem vai te trocar, te limpar, pode ser uma mulher negra ou parda, alguém LGBTQIAPN+. Envelhecer no Brasil é assustador. Estamos perdendo a civilidade. É um país violento. Hoje vi uma estatística chocante: o Brasil lidera o número de estupros no mundo — 86 mil casos por ano. Mais de 80% das vítimas são meninas com menos de 14 anos, violentadas por alguém da família ou em quem a família confia. E esses números são subnotificados. Se você multiplica isso por uma década, são quase 1 milhão de meninas. Como essas jovens vão envelhecer bem? Estamos perdendo o bonde da história. Nesse contexto, envelhecer é muito duro.
Já pensou em desistir de lutar?
Desistir, não. Tenho consciência do meu poder de fala. Quero ser uma das vozes que defendem os direitos. Tenho ativismo no meu DNA. Sou sobrevivente da ditadura, estive nas ruas nos anos 60, fui presidente de diretório, apanhei. Não posso viver alienado. Conquistei meu espaço com coerência e esforço. E não vou ignorar a miséria, o preconceito. Claro que desânimo bate, mas eu não sucumbo. Me obrigo a ter esperança — mas é a esperança do verbo “esperançar”, como dizia Paulo Freire, não do verbo “esperar”. Esperar passivamente é tolice. Esperançar é agir, se mover, encontrar saídas. É isso que me guia.Algumas pessoas escolhem não ver a realidade. Eu escolho ver. Ainda tenho voz, e vou usá-la enquanto me ouvirem.
Como encara a morte?
Quem trabalha com gerontologia não pode ignorar a finitude. Como eu sou vaidoso, quero deixar um legado. Quero ser lembrado por duas gerações, ao menos. Meu pai foi um homem extraordinário,imigrante, generoso, bem-sucedido e, mesmo assim, meus filhos e sobrinhos sabem pouco sobre ele. A maioria de nós será esquecida em duas gerações. Por isso, estou escrevendo um livro, que será lançado em outubro. Não é uma autobiografia. É um livro de reflexões e vivências,como ensina minha amiga Conceição Evaristo: escrevivências. Já escrevi livros técnicos, mas agora quero deixar algo mais humano, mais verdadeiro.



Adorei! Quero ler esse livro. A humanidade deve estar acima da técnica.
Adorei. Quero ler esse livro. A humanidade deve estar acima da técnica.
Excelente entrevista!
Parabéns Ivani.
Ele aponta claramente para as diferenças e problemas do envelhecimento. Temos que refletir sobre estas questões
Excelente e humana essa entrevista. Reflexões valiosas para nossos velhos e jovens ! Importante seria que chegasse às autoridades!
Necessário falar sobre a velhice; questões fisiológicas, psicológicas, emocionais; mas sobretudo as políticas públicas voltadas para os idosos.
Parabéns, Dr. Kalache, por nos apresentar de forma clara e objetiva parte do seu estudo sobre o envelhecimento no Brasil.
Excelente entrevista.
É muito importante falar sobre o envelhecimento! Tenho 74 anos, sou aposentada, mas me mantenho ativa, o que considero salutar.! Alimento os meus dias exercendo a arte da cerâmica, pintura em tecidos, pilates, café com pessoas interessantes e por aí vai…. Acho maravilhoso conversar com o público jovem e também com os mais velhos! Envelhecer dói fisicamente, mas é importante manter o bom humor!🙏
Ao longo da vida, aprendi que o meu ouvido só escuta o que eu quero. E a vida segue……💐
Gostaria de ler este livro como poço adquirir fantástico
Oi, IVANI
Aqui, quem vos escreve (pra abrir tipo Camões 😅) é coleguinha com mais de meio século de redações 🫣. Raramente, faço uso de espaços digitais pra comentários…Mas esta entrevista motivou. Faz é tempo que não lia matéria desta qualidade – na internet então, ôôô… A começar pela escolha do entrevistado (taí, uma Criatura!) e seguir pela riqueza do conteúdo. Passando só pra aplaudir&agradecer.🙏🏻
Que entrevista edificante!!!! É aquela entrevista que deveria estar em todos os lugares, para alcançar o maior número de pessoas possíveis! Que pessoa sábia! Já esperando ansiosa o lançamento do livro! Gratidão 🙏🏾
O Dr.Kalache é um farol para os idosos.
Parabéns… gostei muito da matéria e das reflexões possíveis a que nos remete. Aguardo o livro com bastante interesse… obrigada!
Excelente entrevista.Conheci o entrevistado há alguns anos numa palestra na Casa do Comércio ,aqui em Salvador.Suas idéias são muito claras.Ele esbanja conhecimento e coerência.Como idosa-completei 75 – e só me aposentei porque fui obrigada – aposentadoria expulsória rsrs – tenho muitos projetos para continuar vivendo.Quero muito ler o livro do professor Kalache.
Por acaso, cheguei à leitura da entrevista. Há muito que procuro ler o que Alexandre Kaleche tem para comunicar sobre o envelhecimento. Uma pergunta mais para o Alexandre, o livro poderá chegar a Portugal? porque não a sua apresentação em terras de Portugal?