
Paulo Mauá sempre teve, em sua alma, um escritor e um regente. Nasceu em uma época na qual as famílias preferiam direcionar a formação dos filhos para carreiras como Medicina, Engenharia ou Direito. Foi na Engenharia que ele se formou mas os trabalhos da sua vida – a literatura e a regência – permaneceram adormecidos, como um sonho que um dia se tornou inadiável. E Paulo, então, largou tudo para viver a vida que sempre quis. Criou um método de ensino de música para cegos, foi o regente de uma orquestra composta exclusivamente por pessoas com deficiência visual por 15 anos, é autor de mais de 20 livros, a maioria deles infantis como a adorável saga Panapaná.
Nesta entrevista exclusiva ao Jornal da Orla, ele fala de sua trajetória, dos livros e de muitos outros assuntos. Confira.
Como é a sua história de amor com a leitura? Começou na infância?
Eu sempre gostei de ler. Eu lia muito gibi, meu pai colecionava todos os gibis da Disney, mas eu me lembro, eu não era um Monteiro Lobatista. Tinha muito livro em casa das Mil e Uma Noites, livros grandes, coloridos, contando as histórias do Aladim, do Ali Babá, e essa coisa da fantasia, de cavaleiros. Mas tem um que me marca muito, que é O Menino do Dedo Verde, do Maurice Druon, um livro da década de 50 para 60, uma obra atemporal. Imagine, um menino pôr o dedo na boca do canhão e ele florescer! É um livro de cabeceira.Depois, no Ensino Médio, foi um professor de ciências, o Alfredo Cordella, que me provocou o maior impacto em relação aos livros. Ele indicou o Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, que representou outra ruptura na minha visão de mundo.
Em que momento da sua vida a literatura se tornou importante?
Eu sempre fui um leitor, mas foi na faculdade que a paixão aflorou. Eu fazia Engenharia, mas escrevia no jornal. E aí de vez em quando o reitor lá da USP chamava a gente, questionando o porquê de ter saído alguma coisa. Só que a gente escrevia com pseudônimo, eu peguei início dos anos 80, com a ditadura ainda em ebulição. Achava aquilo muito transgressor. Comecei a escrever contos ainda na faculdade e continuei a ser um leitor. Estudava fora, em vez de eu voltar do campus eu ficava na biblioteca lendo, então isso foi uma coisa de hábito. Comecei a participar de concursos de contos, mandava pra concurso. E eu já estava trabalhando aqui em Santos, com o Sr. Toninho lá na construtora.
Em que momento você viu que aquilo podia ser mais do que um hobby?
Eu havia participado de um concurso, sem ganhar nada, mas o dono da editora Olho D’água, que também havia participado, me liga, diz que iria lançar uma antologia de contos e que um conto meu havia passado pela banca de jurados.Pediu, então, outros quatro contos meus para aquele livro. Eu já tinha mais de 40 anos, nunca havia publicado nada, comecei de fato bem tarde. O lançamento aconteceu na Bienal de São Paulo. Foi muito legal, porque foi a primeira vez que eu tive um crachá, escritor. Meu pai, que já naquela época, 2002, não saía de casa pra nada, sem me avisar subiu, entrou na fila, comprou o livro e veio pedir meu autógrafo. Aquilo me marcou.
Sobre o que era esse primeiro conto, você lembra?
Sim. Postais. Esse conto de 2002 era baseado numa história que eu escutava muito na minha família. É a história de um casamento idealizado, eles saem em lua de mel, vão no navio e ainda durante essa viagem ela descobre que ele tinha um outro homem. E aí ela chega na Europa e manda um postal do porto que ela chega, que é Lisboa, dizendo que o casamento acabou. E como ela já estava lá, até para ficar menos amarga com o que aconteceu, ela vai passear pela Europa, só que ela nunca mais volta. E eu falo no final, isso aconteceu há mais de 100 anos atrás hoje a família recebe semanalmente um postal dela, acho que é Zizi, eu dei um nome assim, Ela fala coisas sobre os doces portugueses, depois ela vai para a França, aí fala sobre a liberdade, eu ponho pequenos trechos dos postais. A prima recebe uma de Istambul, o outro recebeu da muralha da China. Então assim, é uma coisa que não tem lógica.
E a literatura infantil, como surgiu?
Fui para a área infantil meio sem querer. Foi um conto meu que brincava com crianças que uma editora de São Paulo leu. Ela estava em uma oficina que eu participei e ela me perguntou se eu dava aulas para crianças, que meu jeito de escrever era muito bom para literatura. Fui conversar com o Zé Luiz Tahan, da Realejo Livros. Mostrei meu conto e ele disse: transforma isso aqui em um livro que a gente publica! Mas, você vê, em 2002 eu participei de uma antologia, mas eu só fui lançar o primeiro livro em 2014, Circo Panapaná.
Você já tinha esse hábito de escrever contos?
Não, eu escrevia na escola e guardava pra mim. De vez em quando eu acho algo escrito desta época. Minha mãe me deu agora de Natal, esse ano, um livro que eu fiz com espiral, datilografado, com escritos meus dos anos 60 e 70. Eu releio e fico pensando: “Meu deus, olha essa ideia, que coisa doida”. Então, eu sempre escrevi mesmo. Eu não lembrava desse livro que eu tinha feito pra família. Aí ela fez uma dedicatória pra mim.
Você se formou em engenharia mas depois dos 40 anos sua vida seguiu em uma direção oposta, a das artes. Qual é a história por trás disso?
Na minha época persistia aquela visão de que carreira boa era na Medicina, no Direito ou na Engenharia. Eu lembro, quando eu entrei na USP, que a Escola de Comunicação e Artes não completou as vagas. Aquilo me marcou, porque era para onde eu queria ir. Isso ou regência na Unicamp. Eram duas coisas. Mas meu pai falou não. “Faça engenharia, se forma, depois você faz o que você quer”. E eu segui o conselho dele. Agora eu estou fazendo o que eu quero.
Enfim, hoje você é escritor em tempo integral…
Eu era engenheiro, trabalhava em São Paulo. Depois tinha uma empresa de tecnologia aqui em Santos. Até que eu tive um problema muito sério de saúde, um aneurisma hemorrágico. Fui lá para cima, aí o homem falou: “não, você não está entendendo, você não fez nada do que era planejado. Desce”. Eu desci, e a partir daquele momento a minha escala de valores se alterou completamente. Eu reduzi a empresa de tecnologia, comecei a dar aula no colégio. Idealizei o projeto de inclusão musical para os cegos. Eu comecei a ter um tempo para mim. A renda começa a diminuir, mas respaldo eu tinha para isso. E eu sou um privilegiado por poder fazer isso. Pouco tempo depois, eu e a Malu, minha esposa, acabamos dando a empresa de tecnologia para os funcionários. Não vendemos, demos. E aí eu me dediquei por 15 anos ao projeto de música para cegos, o qual hoje acompanho mais à distância. O meu ciclo com a música já se completou. Agora é a hora de me dedicar integralmente à literatura.
Livre para voar e escrever!
Ano passado, fui à Flitabira, na Feira da terra do Drummond, que eu nunca tinha ido como autor convidado. Agora eu vou pra Flipoços. A literatura infantil fez com que eu tivesse livro próprio, mas agora eu quero partir para o romance. E a própria oportunidade de ser um dos vice-presidentes da UBE, da União Brasileira de Escritores, faz você ter um elo com outras pessoas, com as outras conversas, outras entradas. Ser um dos autores que classificam a literatura do prêmio Vladimir Herzog também é algo marcante.

Como todas essas histórias entraram em você?
Eu acho que toda história está adormecida na gente. A partir do momento que você sai pra rua, ou lê um livro, ou assiste uma série na Netflix, sua mente absorve e incorpora aqueles conceitos. Quando faço a mentoria de escrita e a pessoa diz que quer contar uma certa história mas não sabe como, eu falo “então, só pra terminar, o seu livro é o seguinte: e explico”. A mentoria justamente é cuidar daquela pessoa que acha que não é uma escritora, porque isso vem da oralidade tribal nossa. De contar a história. O escritor é um grande mentiroso, porque ele pode contar o que ele quiser.
E o contato com as crianças, como é que foi?
Isso não tem preço. Eu falo para quem escreve só para adultos: “vocês não sabem o que é o brilho dos olhos dessas crianças”. Eu tenho uma história que aconteceu em uma escola pública da periferia de São Vicente. E uma criança se levanta, do nada assim, seus seis, sete anos, vem andando no meio das crianças na minha direção e eu paro de falar e ela me dá um leve beliscão no braço. A professora apavorada atrás. E aí a criança falou: “eu só vim ver se você é de verdade”.
Você também trabalha o estímulo à leitura?
Eu faço parte do Proler aqui em Santos também. Acho maravilhoso poder fazer alguma coisa pela cidade, porque é a retribuição que eu posso dar em termos de leitura. A Eliane Pimenta, do Proler, está fazendo mentoria comigo.
Uma das grandes polêmicas da criação artística, hoje, é a inteligência artificial. Você, como escritor, engenheiro e fã tanto de tecnologia quanto de ficção científica, vê de que forma esta questão?
A inteligência artificial é uma ferramenta, assim como foi o PowerPoint. Se você não tiver criatividade, não tiver organização, não adianta. Temos um cenário hoje em que não se pode usar inteligência artificial para criar roteiro, para criar capa de livro… Então vamos todos desligar o computador e fazer tudo na mão. Eu já testei. Já peguei software de inteligência artificial para criar uma história. E não ficou boa, porque o tempero, a mudança, o tal do plot twist que eles falam, vem do humano. Eu tenho um software de edição de áudio que eu digito e tem uma tecla que chama Humanize. Então eu posso tocar com perfeição o teclado e aí depois eu vou lá e clico. E aí aquela precisão desaparece, o dedo escorrega, entra no tempo um pouquinho antes e o som fica muito mais saboroso. Não temo e não uso.
Queria falar um pouquinho do seu trabalho na área musical também. Foram 15 anos com a orquestra de cegos… O que a arte acrescentou na vida dessas pessoas?
Costumava dizer aos alunos: “Você não vai recuperar a sua visão, mas vai recuperar a autoestima”. Pessoas que nada sabiam de música e que estavam invisíveis. Além de se sentir invisível, a pessoa acha que não serve para nada. O projeto, ele tem essa acolhida, tanto é que eu falo que um dos pilares do método, não exige conhecimento de braile, não exige conhecimento de musicografia. Você aprende na repetição. E aprende, principalmente, na acolhida. E pra quem assistiu na época que eu estava, até o ano passado, os concertos tinham Chico Buarque, Gilberto Gil, Marisa Monte e Luiz Gonzaga, Queen, Pink Floyd, Rolling Stones, Mozart, Beethoven, Bach. Essa aí é uma coisa minha, essa provocação de misturar gêneros, estilos, faz parte porque o mundo é todo misturado e eu quero que o mundo seja misturado.
E como foi para você se afastar desse “filho”?
Foi sofrido. Eu fui na primeira aula presencial de orquestra. E fui na última. Cara, esse intervalo… Angústia, né? Foi terrível, mas eu consegui cortar o cordão. A literatura teve muito peso nessa decisão. Sabe, ir até Itabira e entrar na casa do Drummond… Se eu estivesse no projeto, eu não teria esse tempo… Eu fui ao Chile e fui nos três museus do Neruda, num deles voltei, fui duas vezes. Então, essas coisas que eu não fazia, porque o projeto me envolvia, então, pelo menos agora eu estou fazendo… e continuo escrevendo, produzindo, lançando livro. Então, é muito importante isso.
Você falou do romance para o qual está estudando. Como essa produção “adulta” vai dialogar com a literatura infantil?
Eu acho que eu nunca vou deixar de escrever literatura infantil e juvenil. Eu gosto muito disso, mas agora eu estou indo para o romance. Eu já tenho um romance lançado na Amazon, é um romance de mistério passado em Santos. E agora a ideia é essa, é publicar o livro impresso. Então assim, eu estou indo para essa linha de romance e eu estou gostando.
Algo que eu não tenha te perguntado?
Trouxe para você ver esse trabalho que, pra mim, é o mais bonito que eu tenho em termos de literatura infantil, que é o trabalho que eu fiz com o Seri, o ilustrador daqui de Santos, que é o livro Rosa Cor-De-Boto. Eu fui contratado por uma conhecida pedindo que escrevesse algo sobre violência sexual contra crianças. Fiquei meses me perguntando como fazer. E um dia, eu estava em Serra Negra, acordei cedo, escrevi na tela “O Boto Cor de Rosa” e fiquei olhando para ver se a tela falava comigo e aí fiz A Rosa Cor-de-Boto, na hora que eu fiz isso a poesia foi embora e me veio a história. Uma história que não queria ser contada, mas que precisa ser. Literatura pode salvar vidas.


Parabéns pela entrevista! Os livros do Paulo Mauá são lindos. Recomendo todos!
Só tenho a agradecer aos amigos e jornalistas Gustavo Klein e Eduardo Silva (Luzio para mim desde o Colégio Santista onde compartilhamos as cadeiras escolares) do Jornal da Orla pela acolhida, bate-papo e oportunidade de falar sobre inclusão, arte e literatura, vida.
Os livros do Paulo Mauá são lindos. Recomendo todos!
Amei a entrevista inspiradora.
Parabéns pela matéria. Muito bom conhecer escritores da nossa região.
Tive a honra e o prazer de dividir momentos literários com o Paulo e meus alunos.
Um escritor com linguagem simples e adaptável para todas as idades. Realizamos trabalhos e apresentações de excelência.
Sucesso, Paulo!
Paulo Mauá é um irmão, amigo, um talento ímpar.
Saudade das nossas folias literárias, Ruth, uma grande professora!
Paulo Mauá, para mim o Paulinho, é uma pessoa ímpar: espirituoso,engraçado, criativo, reflexivo, muito envolvente,desde à época que adolescente,tive o privilégio de ser sua professora de música!
Fiel às amizades,família, sempre buscando mais e ” saboreando” as conquistas adquiridas como escritor!
Vida Longa,querido Paulinho!!!!
Mais um dia de sol na vida dos leitores, sabendo mais a fundo de onde vem estas histórias maravilhosas, parabéns Paulo.
Verdade, o belo no humano são as pequenas imperfeições.
Que alegria constatar a ebulição do talento do amigo Paulo Mauá também (e principalmente) na escrita! Aqui em Santos mantemos contato pessoal esporádico, mas à distância sempre acompanho entusiasmado a trajetória dele nas letras. Que o merecido sucesso continue sem trégua e Paulo sempre nos brinde com sua arte criativa. Abração literário!
Desfrutei de imenso prazer ao ler sua entrevista recomendada pelo escritor e jornalista Olavo Avallone. Temos muito em comum em termos de jornada literária, os rumos da vida nos dando permissão para exercer os múltiplos dons.Parabéns pelo conjunto de sua obra. Sucesso !
Entrevista deliciosa e cheia de bons motivos para ler e se divertir. Aguardando com ansiedade os próximos!
Como agradecer a tantas palavras de carinho acima? Só desejando paz e perseverança, por um mundo melhor e necessário a cada dia. #gratidão