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Um olhar pelo retrovisor da história

24/01/2014
Um olhar pelo retrovisor da história | Jornal da Orla
Uma cidade com muitos terrenos descampados, ocupados por times de futebol de várzea, chácaras de japoneses, cassinos luxuosos, hipódromo, pouso de aviões na praia, onde banhistas trocavam de roupa em cabines instaladas na areia, e uma efervescente vida noturna. Longe de ser produto da imaginação, são pinceladas da vida em Santos, em diferentes momentos do século passado. Uma cidade distante do seu presente, mas viva na memória dos moradores mais velhos e outros nem tanto assim.   
Jockey Club 
Santos já teve um hipódromo bem perto da praia, o Jockey Club de Santos, que ocupava a área onde hoje existe o conjunto habitacional do BNH até o posto do INSS, no bairro Aparecida. As primeiras corridas foram disputadas ali em 27 de julho de 1919 e as vitórias se transformavam no melhor assunto da semana, gerando discussões acaloradas na Padaria Jockey, na esquina da Alexandre Martins com Pedro Lessa. O clube hípico encerrou as atividades em 1930 e, por muitos anos, constou como a única edificação importante num imenso terreno descampado, cortado apenas pelos primeiros canais e pelas avenidas Afonso Pena, Pedro Lessa e Bartolomeu de Gusmão. 

Campos de futebol de várzea
Estima-se que Santos já contou com 240 campos de futebol de várzea, boa parte espalhada na área entre as avenidas Pedro Lessa e Epitácio Pessoa, na época com muitos terrenos vagos. Só na extensão do cais entre o Canal 5 e a Ponta da Praia havia cerca de 12 campos. No terreno do conjunto do BNH, em torno de 10, e onde foi construído o conjunto Martins Fontes (conhecido como Jaú), no Canal 5, uns 11. Os clubes proliferavam, apesar do dinheiro curto e da dificuldade de comprar jogos de camisa ou pares de chuteira. Ainda assim, o futebol de várzea de Santos revelou muito craques, como Gilmar, Pepe, Baltazar, Cláudio e Clodoaldo. A cidade ainda conta com alguns times de várzea, mas hoje um dos grandes entraves é a escassez de áreas livres para a disputa das peladas.

Chácaras de japoneses
Houve um tempo em que o valorizado bairro da Ponta da Praia era ocupado por chácaras de japoneses, que cultivavam chuchu e outros legumes e hortaliças. A primeira grande leva de imigrantes chegou ao Porto de Santos no dia 18 de junho de 1908, a bordo do vapor Kasato Maru. Em Santos, os japoneses espalharam suas chácaras também pelos bairros do Marapé, Saboó, Campo Grande.  Até a Segunda Guerra, a cidade era abastecida exclusivamente por produtos cultivados nessas plantações. Como o Japão ficou na posição de inimigo no conflito mundial, em nome da segurança nacional os japoneses e alemães tiveram que se retirar às pressas de uma faixa de 50 km do litoral brasileiro. 

Cassino do Monte Serrat
Nas décadas de 30 e 40, os cassinos atraíam a sociedade sofisticada da época, com jogos de bacará, campista, roleta, carteado e espetáculos de artistas nacionais e estrangeiros. Um deles era o cassino do Monte Serrat, que funcionou legalmente de 1927 a 1946 e cujos luxuosos salões eram frequentados por empresários, autoridades, políticos. Com a proibição dos jogos de azar no país, o cassino funcionou clandestinamente durante um período e sua posição era estratégica. Se a polícia fosse fiscalizar o local, só poderia subir pela escada ou pelo bondinho e, com isso, os frequentadores teriam tempo de se espalhar. Em 1998, os salões foram reinaugurados, mas só para a realização de festas.

Boca de Luxo
A hoje decadente Boca de Santos, no bairro do Paquetá, viveu sua fase áurea nas décadas de 60 e 70. Durante o dia, a chamada Boca era prosaica, porém à noite a metamorfose fazia esse trecho urbano explodir em luzes e letreiros coloridos a gás neon e ao som de muitas orquestras.  O lugar era frequentado por marinheiros à procura de diversão após longos dias no mar, jovens santistas de todas as classes, turistas da Capital e interior.  Os luminosos das casas noturnas anunciavam espetáculos com artistas nacionais e internacionais (como o ‘rei do bolero’ Gregório Barrios, Jamelão, o flamenco Carlos Molina, a cubana Flor de Lótus), bailarinas e números de strip-tease. Casas como Night and Day, Casablanca, Flamingo, Love Story, My Love, ABC House, El Moroco, Samba-Danças, Hamburg Bar, Bar Porto Rico, Zanzibar, Bar Lucky Strike, Moby Dick Bar e muitas outras que fizeram história na noite santista.
 
Cabines de banho
Na primeira metade do século passado, época dos grandes hotéis de luxo da orla,  predominavam na praia as cabines para banhistas, que ficavam dispostas em fileiras, assim como ocorria em praias europeias. As pessoas chegavam pela ferrovia, trajadas de ternos e chapéus e de vestidos volumosos. Depois seguiam direto para a praia. Os turistas alugavam as roupas de banho e tudo o mais que precisavam, trocando as vestimentas nessas cabines.
 
Bairro Chinês
Até o início do século passado o Valongo era reduto da elite santista. À medida que Santos cresceu, o bairro foi perdendo status e as boas casas, onde residiam famílias endinheiradas, passaram a ser ocupadas por gente mais simples, que chamava a Freguesia do Valongo de Bairro Chinês. A denominação remonta à época em que imigrantes japoneses começaram a transformar o chamado Capinzal em chácaras: por terem olhos rasgados, foram confundidos com chineses, daí o aparecimento do nome popular.

Parque Balneário
Foi mais de um século de existência, considerando suas várias fases, que fez desse hotel um ponto de referência da cidade, com muitas histórias, principalmente no auge de suas atividades, quando o cassino fervilhava, atraindo gente endinheirada e artistas, e seu luxo e conforto fizeram fama. Ocupava todo um quarteirão no bairro do Gonzaga, junto à praia. O próprio Hotel Parque Balneário serviu como base para a criação de vários clubes e entidades, sendo marcantes ainda os banquetes, jantares e bailes ali realizados. Com a proibição do jogo e devido às crises que assolaram o país, o hotel entrou em decadência. Em 1972 foi vendido para um grupo financeiro que, em 1976, iniciou a sua demolição. Em seu lugar, foram construídos o atual hotel, o shopping e outros prédios.

Cinelândia
Santos já teve o maior número de cinemas por habitante do país, época em que o Gonzaga era conhecido como Cinelândia. Os cinemas espalhavam-se pelos bairros (Macuco, Marapé, José Menino, Encruzilhada e outros), com concorridas matinês e estreias de clássicos da telona. Eram salas enormes, como a do antigo Cine Caiçara, no Boqueirão, com capacidade para 1.800 lugares. A maioria cedeu lugar para supermercados, lojas e até igrejas. Hoje, o cinema é um espaço de lazer confinado em salas menores dentro de shoppings, competindo com a tevê de alta definição, o DVD, o videogame, a Internet, mas não perde o glamour como sétima arte.
 
Pista de avião na praia do Gonzaga
É difícil de acreditar, mas a praia do Gonzaga já serviu de pouso e decolagem de aeronaves pilotadas por personagens históricos como Edu Chaves, Roland Garros e Anésia Pinheiro Machado. Na época, uma viagem de aeroplano de São Paulo a Santos era considerada uma verdadeira “prova de fogo”, devido à Serra do Mar. 
Eduardo Pacheco Chaves e o francês Roland Garros realizaram a primeira viagem aérea São Paulo-Santos-São Paulo em 9 de março de 1912. Na ocasião, o governo do estado oferecia um prêmio de 30 mil réis a quem conseguisse a façanha. Em 18 de maio de 1922, Anésia, aos 17 anos de idade, aterrissou com seu pequeno aeroplano na praia do Gonzaga, surpreendendo os banhistas que ali se encontravam. Uma outra aviadora, Thereza di Marzo, a primeira mulher brasileira a tirar o brevê de piloto, não ficou atrás, levando a cabo o ousado raid aéreo São Paulo-Santos no dia 7 de setembro daquele mesmo ano, como parte das comemorações do Centenário da Independência do Brasil.

Matadouro Municipal
Inaugurado em 1916, o antigo Matadouro Municipal funcionou até o final da década de 60 na av. Nossa Senhora de Fátima, na Zona Noroeste, onde hoje é a sede local do Sesi.Era o destino final dos bois que chegavam a Santos. Lá, as reses eram abatidas, para abastecer os açougues e os pequenos frigoríficos. Era lá também que as pessoas iam buscar carne fresca. De vez em quando havia estouro da boiada. Quando o Matadouro foi inaugurado, a Zona Noroeste não passava de um grande manguezal. Aos poucos, algumas chácaras foram surgindo e, com elas, a povoação da área. Para isso contribuiu a antiga Linha 1 do bonde, que ficou conhecida como Linha do Matadouro.

Estação Sorocabana
Uma das construções mais características da Santos do século XX é a Estação da Estrada de Ferro Sorocabana, na confluência das avenidas Ana Costa e Francisco Glicério. Inaugurada em 26 de julho de 1938, com a presença do presidente da República, Getúlio Vargas, substituiu uma pequena estação terminal da linha ferroviária Santos a Juquiá, que ligava o Porto de Santos ao Vale do Ribeira.  Foi graças a esse trem que cidades como Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Miracatu e Juquiá cresceram. A Sorocabana passou ao controle da Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa) em 1971 e, com a privatização da Fepasa, a estação foi fechada e seu prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico de Santos e restaurado para uso em atividades culturais.  No antigo pátio de manobras foi erguido um hipermercado.
 
Pink Panther
Uma boate à beira-mar. O Pink Panther, porém, não era apenas isso: a famosa casa noturna oferecia grandes atrações, belas moças, atendentes poliglotas e atraía anônimos e famosos, em busca de companhia ou apenas se divertir com os shows apresentados. Funcionou até a década de 90 no mezanino do Edifício Universo Palace, na praia do José Menino. O edifício foi erguido onde antes existia o Palace Hotel, um sofisticado hotel inaugurado em 1910 e que contava em seu interior com esculturas francesas e lustres de cristal. 

 
Banho da Dona Doroteia
O “Banho Dona Doroteia, Vamos Furar Aquela Onda” deixou saudades nos foliões santistas. Era a grande diversão do domingo que antecedia o Carnaval , com o desfile de blocos patuscos e não-patuscos pela avenida da orla, na Ponta da Praia. Homens caracterizados de mulheres e blocos que encantavam por suas fantasias de luxo e elaborados carros alegóricos, como o Dengosas do Marapé, Favoritas do Sultão, Bloco das Esmeraldas, Mariposas de Santo Antonio, Romanos do Campo Grande, As Misses, Gueixas do Atlanta, Cruz de Malta, Oswaldo Cruz. A brincadeira foi criada no Clube de Regatas Saldanha da Gama em 1923 e durante décadas foi uma das grandes atrações da cidade. Infelizmente, acabou na década de 90 devido à violência.