
Havia invasores no meu jardim, e não eram os clássicos forasteiros de um dia. Era um pequeno bando de tapicurus, egressos do Sul do País na letargia urbana da pandemia. Eu, hominídeo de ascendência mais próxima dos portugueses, como os pardais, me surpreendi para surpresa também do meu maltês, de origem mediterrânea, e da britânica e simpática yorkshire.
Lembrei que, tal qual o tapicuru e o pardal, também não sou daqui, mesmo tendo vindo à luz localmente numa manhã de vento noroeste. Uma genealogista perguntou um dia meus sobrenomes, e para minha informação, disse ser eu fruto de mouros com cristãos novos, portanto judeus.
Parei para fotografar aquelas aves mansas de bico fino e curvado que se refestelavam entre tufos verdes e flores do meu jardim, e algumas se exibiam abrindo em leque suas asas, lembrando os pavões machos quando querem atrair as fêmeas e desviar a atenção sobre pés sem igual deslumbre.
Os pavões, parentes dos faisões, são originários da Ásia. Como os ascendentes do novo prefeito de Nova Iorque e o atual prefeito de Londres. Na Big Apple a miscigenação domina o mundo. A harmonia é possível. A nova chefe de polícia é uma festejada judia, representante da comunidade judaica que fundou Wall Street.
O prefeito novaiorquino assumiu com a mão sobreposta sobre um Alcorão. A religião e a ideologia determinam sempre os rumos da História, quando não revelados objetivos econômicos. Não só guerras mudam o mundo. A eterna migração também.
Desde a Eurásia vamos nos espalhando pelo planeta. Sempre buscamos ser mais felizes. Como fizeram turbas de povos dominadores por toda a vida, vikings, fenícios, portugueses, espanhóis…Ninguém escapa à busca de Shangrilá. É o que acontece hoje com o islamismo, que parece invadir a Europa.
Curioso é que a força de uma ideia religiosa muda rápido um povo. Há poucas décadas em Teerã as meninas corriam alegres pelas ruas rumo à escola em uniformes ocidentais. Hoje tentam impor a burca ao adentrar num restaurante de Paris, e aí começam os conflitos.
Quando migramos invadimos um espaço natural que outros ocupavam. Muitas vezes levamos a contribuição do progresso, com muito suor. Nova Iorque foi assim, para ficar só num exemplo.
Como meu jardim reagirá aos tapicurus é cedo para saber. As garças, de origem que desconheço, continuam exibindo-se silenciosamente nos canais. Mas talvez sintam a perda de espaço e de subsistência. Tapicurus, procurei saber, são herbívoras, mas apreciam muito pequenos crustáceos, por isso habitam usualmente terras alagadas. Talvez a ameaça maior seja para os caranguejos nos mangues do estuário.
O que todos buscamos é o conforto, que sempre havemos de preservar. Quando nos vemos ameaçados por forasteiros, esquecemo-nos da própria origem.
Tudo, enfim, pela preservação do conforto.
Li que durante bom tempo um cientista comportamental norte-americano pesquisou sobre ratos. Recebeu financiamento e construiu a Pasárgada dos roedores. Um ambiente perfeito para lá viverem aqueles animaizinhos brancos de experimento. Eram oito inicialmente, num condomínio com mais de 200 compartimentos com fartura de alimentos e bebida. Em cerca de um ano já eram mais de mil roedores, todos saltitantes e felizes.
Nesse projeto, chamado Universo 25, começou a certa altura uma mudança de comportamento. Pararam de procriar, se mostraram tristes e agressivos a ponto de se formarem bandos que se mostravam supremacistas. E aquela sociedade harmônica de ratos começou a se extinguir.
O cientista concluiu: o que faz a sociedade se manter com qualidade não é o idealizado conforto, mas sim o propósito de se viver, coletivamente ou só. Viver junto requer esforço.
Espero que os tapicurus venham para nos agregar, como os pardais, que vivem em harmonia com as ricas aves desta Serra do Mar. Afinal, somos mesmo todos migrantes neste planeta. Feliz 2026!.



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