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Sem graça

29/11/2025 Vicente Cascione
Sem graça | Jornal da Orla

Não conheço ninguém mais sem graça do que esse cara com quem me deparo quase diariamente diante do espelho. As graças que me faltam posso enumerá-las, uma a uma, com a autoridade moral de quem não tem nenhum complexo capaz de levar-me a enxergar-me como uma terra árida e ressequida.

Nessa agonizante língua portuguesa, antiga e última flor do Lácio em fase de extinção, resta-me talvez uma única graça encontrada numa pergunta fora de uso:

-“Qual é a sua graça?”. E eu respondo, dizendo o meu nome.

Esta graça me pertence, todos a possuem, salvo os anônimos e inominados.

Mas a graça mais importante, concessão de Deus aos homens, e que os torna capazes de alcançar a salvação, devo tê-la perdido nas vielas da existência por força de “meus pecados, uns maiores, outros menores, mas, no geral, bem pesados”. Na sequência destes versos, talvez eu tenha a mesma sorte do poeta Paulo Vanzolini, no seu “Juízo Final”. De um lado, ele põe num dos pratos da balança, o peso de seus pecados. “Do outro lado, somente a ingratidão que sofri: o anjo pôs na balança, e vestido de branco, eu subi”.

Quem sabe?

Graça quer dizer também, elegância ou leveza de formas e movimentos. Tristemente, não é o meu caso. Até mesmo os paquidermes, antagonistas de Fred Astaire e Nureyev, são mais harmoniosos em seus gestos quando deambulam nas savanas ou na clausura dos picadeiros. Invejo a leveza de uma avalanche, a sutileza de um trator, a suavidade de um tiranossauro rex. Eles parecem colibris voláteis diante de meus gestos desajeitados, estabanados, abrutalhados de um Ban Ban agravado pela idade adulta.

Mas a falta de graça nesse quesito não me incomoda pois isso sobra aí nas ruas, ou em ambientes restritos, e nas estrebarias onde o coice torna-se uma forma usual da expressão humana.

Existe outra graça, palavra singela, em meus gestos de agradecimento, mas confesso contristado que ela vai rareando em minha boca e também na boca de meus circunstantes, e dela resta talvez um mero resíduo no grito extremo de um: graças a Deus!

Mas a graça da qual sou estéril é a de fazer-me incapaz de fazer os outros rirem, isto é, a graça da comicidade e de ser hilariante, mesmo também sendo intimamente, brincalhão e engraçado.

Quando desperto o riso em outras pessoas, certamente é sem querer, e por motivos opostos à minha intenção.

Muitas vezes, ao falar sério, agindo de modo austero e estando de mau humor, rabugento ou irritado, provoco risadas por mim indesejáveis. Mas, no final, a graça que não fiz e não quis fazer provoca risos inesperados e eles me desarmam o rigor, a austeridade, o mau humor e a irritação.

Num resumo, acabo rindo de mim mesmo, e isso me faz bem, afinal, Millôr disse essa verdade: entre o riso e a lágrima há apenas o nariz.

Hienas parecem rir, mas o riso é mero ruído necrófago de quem se nutre dos restos da vida. Ao menos os raros humanos que riem de mim mesmo sem eu querer, riem de verdade. E isso é bom.