
Deus poderia ter feito algo muito melhor além da criação deste diminuto planeta Terra, mundo insignificante diante de uma ínfima Via Láctea com bilhões de partículas borrifadas num canto do universo, onde bilhões de outras galáxias flutuam em permanente expansão numa misteriosa dança quântica, rodeando buracos negros e uma nova matéria (os cristais do tempo).
Tudo misturado em perfeita ordem num suposto movimento relativo, na velocidade constante ou inconstante da luz, e no curso do tempo que anda para frente e para trás segundo as mais recentes afirmações colidentes e conflitantes da sábia Ciência ignorante vista como próxima da verdade universal situada… sei lá… a uma distância infinita do exíguo conhecimento da genialidade humana.
Não entrou jamais em minha cabeça oca de sabedoria, mas repleta de boa vontade para aprender, que um Deus criaria o incomensurável e a infinitude só para dar-se ao capricho de inserir no cosmos uma esfera planetária literalmente microbiana, micrométrica ou infinitesimal que cabe, inteira e em minúcias, na imagem de um Google Maps.
Se hoje a grandiosidade da Criação pode ser materialmente visível aos olhos contemporâneos, ficam nítidos diante do conjunto da obra os graves defeitos e o trágico desperdício da concepção humana do jeito como ela é, se para tanto não bastasse minha íntima autocrítica, o trágico conhecimento de mim mesmo.
Um Deus lúdico deve ter feito uma variedade de seres, alguns mais bem fabricados, como um Stradivarius, ao contrário de outros violinos dotados de péssima matéria prima, como esses onde os arcos roçando suas cordas extraem de suas almas desastrosos miados de gato.
No entanto, se todos os seres saíram da mesma linha de montagem, e foram distribuídos em múltiplos planetas, coube-lhes o penoso exercício de aprimorar seus espíritos, de cultivar virtudes, para serem capazes da sublimação típica dos seres superiores, à altura dos espaços privilegiados no universo.
Por isso, imagino que nesses planetas baldios e áridos onde o homem agora quer assentar suas barracas de campanha para salvar-se da agonia deste mundo, as vidas foram extintas à custa de um comportamento semelhante ao nosso, predadores de nós mesmos, num instante como este tempo atual da terra solar, onde a humanidade parece caminhar às cegas no rumo traçado pelos exterminadores do futuro, cujos protagonistas e personagens, ao longo das eras, só não encenaram o trágico show do Apocalipse porque ainda não estavam em suas mãos os botões onde se detonam as pirotecnias nucleares.
Esse ser de cabelos pintados de ouro, lábios crispados, cenho franzido, expressão refletora do ódio e da arrogância, forma verídica de um vilão fictício de Hollywood, mãos a assinar com fúria as excreções de sua mente, indivíduo cujos prováveis complexos não se aplacaram com a fortuna e a fama, esse ser não me causa temor nem piedade, mas faz ferver dentro de mim uma terrível ânsia de justiça, a mesma justiça que tantas vezes não se abateu sobre muitos seres abomináveis, mas permitiu, desde sempre, o sangue derramado das artérias dos mártires, dos justos, dos bons, dos virtuosos, e dos heróis.
Não sei como acabará o desvario.
Mas tenho um vago pressentimento de haver, no limiar do horizonte, a inexorável conseqüência da trágica e imperfeita condição humana, de cujos abusos, violações, guerras e desmandos, restará um planeta árido e baldio, onde os deuses presunçosos de cabelos de ouro jamais sobreviveram. Em isonômica e democrática putrefação, eles jazem cobertos pela argila úmida e tingida de seu próprio sangue, do sangue de seus iguais, e, tristemente, do sangue dos inocentes.



Deixe um comentário