
Dezembro é o mês das tralhas que se vão. Lançam-se às ruas coisas sem serventia e gente às compras de outras coisas que, um dia, terão o mesmo descarte. As coisas se renovam ano-a-ano como a fé e a esperança. Nem sempre o amor, que por vezes os ventos levam ou as águas lavam, sem trazer nada que preencha o vazio.
Os caminhões levam feito ventania tantas caixas que, cumprida a missão, se empilham vazias nas calçadas disputando espaço com entulhos e restos relegados dos lares que renovam ao menos o cenário.
As caixas têm vida efêmera.
O que vem dentro nem tanto, até que falhe na sua função e seja substituído por outro, a chegar embalado de tanta expectativa.
Dezembro é o tempo da renovação, embora se busque o ano todo algo que falte ou se deseje. Mas é no frigir do ano, naquele restinho de tempo prestes a se esvair, que corremos para renovar. Somos planta a aflorar as pétalas, cada qual na sua estação. Mas é no outono que o vento e as águas mais levam as folhas ressequidas.
Ao adentrar em novo ano, temos o ímpeto por uma roupa nova, uma parede repintada, o celular dos sonhos. Ao pressentir o Natal, agimos feito lagarta querendo virar borboleta.
É a ressurreição da fé. E ao renovarmos o que nos envolve ou nos atormenta, preparamos novo ciclo para suportar mais um tempo.
Essa é a natureza das coisas e da gente. Tudo tem um fim e um começo. Ao querermos tanto – às vezes nem tanto – buscamos acreditar que tudo será diferente, numa avenida de único sentido, sem pensar que possa surgir o infortúnio na contramão.
Pois é, chegou dezembro, compramos coisas novas, reformamos o casulo, fazemos um bota-fora e frequentamos correntes de confraternização, abraçando quem não abraçamos o ano todo, no cenário perfeito da felicidade universal.
Que assim seja mesmo, nesse palco em que somos os próprios atores, regidos por um Deus que nos permite improvisar para termos uma performance perfeita. Ainda que a cada um seja destinado um tempo. Afinal, assim como o outono prenuncia o inverno, antes do verão há uma linda primavera.
Que se vá tudo sem serventia nesse aflorar da esperança. Que os ventos, as águas e os caminhões levem as tralhas, caixas vazias e entulhos do que ficou no passado. E no afã da renovação, no frissom das filas nos supermercados, busquemos a gôndola da fé, com a esperança de sermos melhores e termos comprado o que realmente faça sentido, a felicidade.
Sem embalagem e prestação, pois esta nada custa.



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