
Passou a Black Friday e não venderam amor. Vi muita gente aflita invadindo as lojas. Vi dedos agoniados apertando ‘saiba mais’. Só não vi alguém oferecendo amor a preço promocional. Nem tudo tem preço, só valor, diria a filosofia de internet. Mas como o amor é, ou deveria ser, um clichê, achei que encontraria quem se dispusesse a explorar esse produto no mercado.
A Black Friday passou, o ano também. É a época em que nos redimimos do que não demos, e lamentamos o que ficou a conquistar. Acima de tudo, é momento de, no balanço do capítulo da vida, desejar o que não temos, buscar o que nos falta nos dias.
É uma espécie de momento ‘saldão’ do ano. O outlet do coração, ainda que um brechó, afinal, a completude não estabelece idade, e sonhar não requer dose diária
de magnésio.
Há muita oferta nas telas. Muita gente querendo impressionar. Frases ‘cabeça’, imagens ostentação, corpos insinuantes nessa vitrine que lembra o Bairro da Luz Vermelha, em Amsterdam. É grande a oferta, diria alguém. Oferta para amar, num leilão que a B3 não explora. Porque amar não tem preço mesmo. E o que se oferece é a ilusão, a carência e o golpe.
Sim, há um verdadeiro ciberataque aos incautos, aqueles que se oferecem para amar em troca de serem queridos. No fundo, uma carência desse sentimento intrínseco à própria noção do existir.
Irônico pensar que amar seja um produto, que amar seja algo que se busque, independente das leis e dos crimes do mercado. Afinal, o amor, tal qual o ódio, é fluído do espírito, cânfora dos dias, entrega sem restrição.
Não tem preço mesmo, só valor, o que não se explica e transcende o ser. Por isso, não cabe buscar o amor, ele se expele com os olhos, o abraço, o pensamento agoniado de querer bem acima até do que às vezes convém, porque amar não tem limites.
Às vezes ocorre um combo, a troca dessa energia do bem, elétrons de felicidade. Mas isso fica por conta do Universo. O que se tem de palpável é a convicção de algo que se sente e irradia a outrem. Então não é uma coisa que se busque, se compre ou se contrate. Simplesmente se dá. Se discorda do que digo, pare no primeiro poste
da rua e anote o telefone exibido no cartaz que anuncia um Perito do Amor, que se propõe a fazer amarração amorosa. Ou outro ‘milagre’ qualquer.
Como se tudo dependesse de alguém capaz de conseguir o que não se possui: o dom de dar a alguém, depois de a si próprio, o que ilumina a vida, e até o que às vezes custa a própria existência, pois, de fato, amar não tem preço.



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