
Um dos golpes fatais contra minha ingênua credulidade foi a revelação de Papai Noel ser apenas uma mentira universal. Minha dúvida diante de sua existência era dissipada por meus pais em cuja palavra eu acreditava acima de todas as coisas.
Já me haviam denunciado a mentira, mas rebati energicamente as afirmações do Dinho e da Tuca sobre terem visto o próprio pai, meu bom vizinho, a carregar nas altas horas, presentes amanhecidos junto à arvore armada pela família em mais um Natal.
Meu argumento em favor da existência inequívoca de Papai Noel era o de que somente ele poderia ter-me atendido porque os presentes por mim solicitados nunca me faltaram, apesar de não estarem à altura das posses de meu pai.
Não sei se eu era precocemente um advogado, mas aos nove anos, convenci o Dinho e a Tuca, caros amigos de infância, de não terem visto o que viram através das frestas da veneziana, na madrugada. Disse-lhes que a imagem de seus pais a carregar caixas e pacotes tinha sido apenas um sonho torto.
Mas eu mesmo mergulhei, algumas vezes, num oceano de dúvidas quando, certa vez, Papai Noel deu-me um brinquedo onde estava colada a etiqueta de uma loja da rua João Pessoa. Ou quando alguns amigos do bairro, cujos pais eram ainda menos afortunados, jamais encontravam nos sapatos deixados na véspera os presentes pedidos.
Quando eu acreditava na mentira do Natal, havia em mim um sentimento de tristeza vendo-me não ganhar nada de meus pais com a desculpa de eu já estar bem presenteado pelo velho Noel. Eu lhes respondia, inconformado, o repetido argumento de não ser justo não me dar nada só porque Papai Noel sempre correspondia aos meus pedidos.
Mas veio finalmente, um dia, a dura confissão. Minha mãe, cheia de pena, como se violasse os últimos traços de uma inocência perdida, disse-me ser meu pai quem comprara os presentes que povoaram de sonhos os natais de minha infância.
Assaltou-me, assim, o remorso de ter exigido coisas materializadas, não sei como, ao amanhecer de cada Natal.
Depois, ao Dinho e à Tuca reconheci a verdade por eles antecipada mesmo enfrentando meus veementes protestos e minha absoluta indignação.
Descobri, desde então, que a farsa e as mentiras piedosas ou maléficas compõem o jogo da existência. É da natureza humana fugir da realidade voando nas asas da ficção, do sonho e da imaginação, ou levada pelos ventos da mentira, da hipocrisia e da falsidade.
Mas no caso de Papai Noel, a decepção com a descoberta de ele não existir não me impediu de reproduzir a mesma ficção no mundo inocente de meus filhos e mais tarde no dos meus netos.
Eu entendia ser preciso dar-lhes, também, o mesmo direito de sonhar, de viver a magia de sua visita em cada Natal e de fazê-los crer na existência de alguém talvez mais generoso, pois seus pais não lhes dariam tudo e saberiam dizer “não”, quando necessário, como lição de vida.
Não custaria cultivar a doce mentira, o ledo engano, afinal, também para meus filhos, mais cedo ou mais tarde, chegou o tempo da revelação, da descoberta, do desencanto, da perda e da saudade; tempo inevitável de conhecer tantas verdades ocultas no jogo da vida.
Por isso, no nascimento de cada inocência, vale a pena reviver o velho Noel, vovô do Jesus menino. Desde que, ao menos no seu dia, o espírito do Natal não seja uma simples farsa ou uma estúpida ficção.



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