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Abrir a porta

15/11/2025 Vicente Cascione
Envato

Quando passei a cursar o ginásio no Colégio Santista no início dos anos 50, descobri a vida como ela é. O mundo real não correspondia aos traços desenhados em meus sonhos infantis.

Era preciso sobreviver à convivência com os meus iguais, adolescentes quase sempre impiedosos no confronto com seus desemelhantes no esboço da sociedade onde os adultos exercem inevitáveis relações de amor e ódio.

A dor da discriminação social abateu muitos dos que chegaram ao Colégio sem ter a afortunada origem de um berço de ouro.

Quando, no final das aulas, íamos para o ponto do bonde, éramos chamados de maloqueiros por morar no Marapé, no Campo Grande ou no Macuco, e ouvíamos o deboche sonoro e humilhante dos colegas repercutir no riso de algumas meninas do Liceu e do Coração de Maria : “ E aí, macacos, vão pegar o cipó para subir o morro ?”Os cipós eram os bondes 37 e 17, dotados de reboques e onde as passagens eram mais baratas. Eles seguiam os canais 1 e 2, à margem, portanto, das nobres avenidas da Cidade.

Quando nos finais de semana havia o aniversário de algum aluno, um colega convidado costumava levar à festa dois ou três amigos que não tinham recebido o convite. Essa era uma prática corriqueira.

Certa vez o Paulo nos avisou sobre uma festa numa mansão nas cercanias do Canal 3. Disse que todos seriam bem vindos e não haveria problema.
Alertei que a festa era de outro nível, coisa de gente fina. Havia o risco de nos barrarem na entrada. Mas o Paulo garantiu que as portas estariam cordialmente abertas, afinal, estudávamos com o aniversariante e ele às vezes recebia de nós, nas provas mensais, a ajuda necessária para tirar notas altas, graças à cola solidária.

Tudo aparentemente acertado, avisei meus pais de minha ida à festa. Quando eles perceberam as pompas e circunstâncias, decidiram que eu deveria ir vestido com uma roupa nova.

Meu pai amargava, naqueles idos, grave dificuldade financeira e, neste aspecto, em quase toda a sua vida desde menino imigrante tendo começado a trabalhar aos sete anos, há uma árdua história de momentos difíceis. Naquele transe, tinha eu 14 anos, e meu pai não dispunha de recursos para comprar e dar ao filho uma calça, uma camisa e um pulover.

Fomos, então, às Lojas Gomes, onde o Fausto e o seu Edmundo, sabendo da história da festa “de gala”, e da situação de meu pai, fizeram um crediário, em verdade numa condição excepcional sem a qual a compra teria sido impossível.

Assim, no sábado, lá fui eu, muito bem vestido, em direção à mansão inimaginável, ao encontro do Paulo e dos três amigos.

Enquanto eu andava pela rua, como se fosse um jovem importante, sentia em meu peito o imenso reconhecimento ao sacrifício de meus pais, para o filho poder ir, naquela noite, à festa de um mundo que não era o seu.

De repente, ao lado de vários outros amigos chegados quase ao mesmo tempo, eu me via ali, junto ao portão da casa onde jamais imaginara entrar algum dia.

Vieram então ao jardim, por trás das grades de um portão imponente, o aniversariante, sua mãe e uma empregada vestida de azul-marinho com babados de renda branca. Perto deles, um homem alto e carrancudo permanecia atento e imóvel como um cão de guarda.

Iniciou-se, então, a triagem, a seleção, a escolha, o descarte, a ceifa, a separação do joio e do trigo. Este entra, este não entra. Este pode, este não pode, este passa, este não passa.

Entraram os convidados e, também, os não convidados mas devidamente aceitos.

O Lino, o Cláudio e eu, não passamos. Fomos barrados enquanto os bravos e distintos colegas adentravam ao recinto deixando-nos ali, na calçada, na triste companhia de nossas vergonhas.

Éramos da turma do cipó, do Marapé, do Campo Grande, do 37 e do 17, rapazinhos sem estirpe nem cepa, gente que não era a melhor companhia para os filhos de damas e cavalheiros dotados de pedigree e sangue azul.

Lembro de minhas lágrimas escorrendo em meu rosto, ao longo de todo caminho de volta, em que percorri solitário a infinita distância e o abismo quase intransponível entre o Canal 3 e a rua Gonçalves Ledo, amada rua de minha infância, espaço livre quase a dividir os bairros do Campo Grande e Marapé, onde guardei meus sonhos, minha liberdade, meus amigos, minha inocência, meus segredos, e onde não havia barreiras capazes de conter meus passos.

Chorei com pena do sacrifício de meus pais, para ornamentar o filho com o uniforme que não lhe encobriu a identidade e a origem. Jamais me esqueci da dor, não pelo que me fizeram, mas pelo inútil esforço dos pais diante de um mundo que eles pensavam poder abrir para seus filhos.

Resta, porém, o consolo de que a força para arrombar as portas fechadas na cara vem exatamente das dores e dos exemplos dos pais e se transfere e cresce de geração para geração.

Quem cultua desigualdades e fecha as portas pelo lado de dentro, pode estar aprisionando a si mesmo ou prendendo seus descendentes, fechando-lhes o acesso para a rua onde os humilhados encontram, mais cedo ou mais tarde, a liberdade de seguir adiante.