Colunas

Frankenstein: ou o Prometeu Moderno

08/11/2025 Rafael Medeiros
Frankenstein: ou o Prometeu Moderno | Jornal da Orla

Foi em uma tempestuosa noite de 1.816 que o já ilustre e polêmico Lorde Byron, refugiado em Genebra para escapar à acusação de incesto com sua meia-irmã, propôs aos amigos um desafio: cada um deveria escrever uma história de terror. O pequeno grupo contava com John Polidori, Percy Shelley, Claire Clairmont e Mary Godwin. E foi dessa despretensiosa brincadeira que nasceu, pelas mãos de uma jovem garota, um dos maiores mitos de sempre do horror: Frankenstein.

Filha do enorme escritor Wiliam Godwin e da revolucionária Mary Wollstonecraft, não é de se estranhar que Mary, que passaria a assinar o sobrenome Shelley após se casar, se dedicaria às letras. Entretanto, impressiona pensar que uma história tão profunda e bem elaborada emergiu de uma jovem de meros 18 anos. Sim, porque Frankenstein é muito mais do que um romance de terror: é uma história moral, cheia de camadas inteligentemente sobrepostas para provocar questionamentos sobre o desejo, o conhecimento e seus limites, a (des)humanidade perante o diferente, a solidão, a ética e o amor.

A literatura do terror nunca foi a predileção deste colunista. Pouco sabemos de Poe, Lovecraft, Stephen King, Bram Stoker. Talvez por achar o gênero estilisticamente caricato ou por entendê-lo pouco abrangente, livros dessa estirpe não frequentam nossas pilhas. Foi-nos sugerido ler Frankenstein para relativizar esse preconceito. E pronto, o mundo mudou. O título é muitíssimo bem escrito e a história é interessante do início ao fim. Uma nova porta literária se abriu. Realmente é importante manter o coração livre e aberto.

Motivos para ler:

1- A britânica Mary Shelley (1797-1851) assombrou o mundo – literalmente falando – ao publicar o seu romance gótico Frankenstein: ou o Prometeu Moderno. Viveu uma curta, porém muito profícua vida literária e ensaística;

2- O leitor notará uma grande discrepância entre o conteúdo do livro e o imaginário cultural sobre a história. O monstro de Frankenstein normalmente é tratado na cultura popular como uma besta desprovida de qualquer racionalidade. Já no livro, Mary se encarrega de meticulosamente construir o “crescimento” da criatura, mostrando-a extremamente articulada, inteligente e eloquente. A forma como o monstro percebe sua própria desumanidade e sofre com o isolamento é comovente;

3 Afinal, o que é o ser humano e o que é a monstruosidade? Estas realidades, postas no início do romance como axiomas incontrastáveis, vão esmaecendo à medida em que o Dr. Victor Frankenstein endurece seu coração vingativo e a criatura, ao contrário, se humaniza. Que o leitor não se assuste se passar a simpatizar com a jornada errante do monstro.