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Minha alma pequena

01/11/2025 Vicente Cascione
Minha alma pequena | Jornal da Orla

Passei a vida inteira a dar murros em ponta de faca para abrir meus caminhos, a cada passo, e para evitar as investidas com que me queriam sangrar o corpo e a alma. Ensinaram-me sempre, desde o advento da razão, um dogma que me parecia ao mesmo tempo instigante e desalentador, um verso a perseguir medos e coragens alucinados dentro de mim:

“Não chores, meu filho, não chores, que a vida é luta renhida: viver é lutar. A vida é combate que os fracos abate, que os fortes, os bravos, só pode exaltar. ”

A ideia da luta permanente – como expressão da vida – infundiu um temor fatídico e prematuro em muitas pessoas que se perderam à margem da existência por sentirem a certeza, talvez absurda, de não lhes ser possível fazer o percurso ou cumprir a viagem, em face da antevisão de derrotas anunciadas.

Mas outras criaturas, prontas para enfrentar inimigos desconhecidos, às vezes não adivinhados ou ocultos nas tocaias e emboscadas da vida, ou explícitos na arena iluminada sob o sol das evidências, armaram-se da coragem de seguir adiante, munidas de suas loucuras, ideais, sonhos, utopias e da lâmina de suas esperanças carregadas entre dentes e lábios crispados.

Alguém me dissera ser impossível obter o pão sem sentir o ardor do suor inundando-me o rosto e que era preciso ainda, além desse cansaço, verter sangue e derramar lágrimas para timbrar o instante das vitórias. E engolir o fel e o sabor amargo das derrotas sem manhas e choramingos com que os fracos ganham a piedade ou o desprezo de seus circunstantes.

Acreditei nos ensinamentos e parti, de peito aberto e lança em riste, com minha fé e minha dúvida, minha esperança e minha covardia, minha valentia e minha loucura.

Ficaram pedaços de mim na vastidão das arenas, nos destroços dos campos de batalha, na relva de pradarias amenas, e meus olhos infantis distraíram-se no espelho dos frescos remansos dos oásis, onde adormeci sob a sombra que abrandou o sol incendiando meu rosto, e sonhei doces sonhos que me trouxeram visões noturnas de noites sem aflição, e recobrei as forças depois das muitas vezes em que me feriram e morri e em que matei, com remorsos, assassinos que não me venceram.

Vivi o bom e o mau combate, às vezes como um fraco abatido, às vezes exaltado como um forte, e segui o rastro da multidão, caminhei na mesma trilha das legiões, fui gota no oceano das gentes de que sou semelhante e vislumbrei, a distância, o vulto inatingível de mártires e heróis inspiradores de meu passo na imensa planície dos homens absolutamente comuns.

Mas não caminhei só. Vozes me encorajaram, braços me conduziram, olhos me iluminaram o caminho, corpos sangraram por mim, almas de anjos deste mundo teceram, com sentimento, a sublimação do amor que antecede a vida e sobrevive à morte. Vivi e vivo nas criaturas que viveram e vivem em mim.

E aqui estou. Comovido… E o texto se interrompe, mas eu o retomo, como fiz nos momentos de minha vida em que as páginas eram viradas e o tempo parecia perdido, as noites sem fim e as esperanças esgotadas.

De repente, no entanto, tudo parecia compor o reinício, a renascença diante de uma perspectiva de eternidade.

Quando chegar o instante definitivo, eu estarei aqui, proclamando, neste testemunho, que, apesar da luta, das injustiças, das amarguras, das derrotas e da distância aberta pela fatal certeza do desencontro a que sobrevirá a insondável dúvida dos encontros, a vida sempre terá valido a pena, mesmo no confinamento de minha alma pequena.