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Os tombos e a vida

18/10/2025 Vicente Cascione
Envato

Nunca me dediquei a escrever textos humorísticos ou cômicos. É uma arte que não alcanço. Mas ao contrário das afirmações de alguns dos meus incansáveis críticos, não sou, no avesso, tão carregado de pesados humores capazes de impedir-me o milagre de rir.

Não me envergonho de revelar neste texto confidencial minha inclinação para rir à toa; portanto, pode até ser aplicável no meu caso o inquietante provérbio: muito riso, pouco siso.

Na ânsia de atender aos que me pedem para escrever algo cômico entre os dramas habituais revolvo entulhos da memória. Nos fatos cômicos relembrados o personagem histriônico e involuntário quase sempre sou eu. No fundo, sou o palhaço preferencial de mim mesmo.

No tempo de minha adolescência vivi tragicomédias sucessivas como quando decidi ser radialista esportivo certamente acreditando na herança do sangue de meu pai, pioneiro do rádio em vários espectros, inclusive no de ter sido o primeiro narrador de uma partida de futebol em Santos, e um dos primeiros do Brasil.

Com 16 anos, a cara e a coragem, ingressei na velha Rádio Atlântica do notável e temível Hernani Franco cuja brilhante trajetória iniciou-se sendo ele o substituto de meu pai.

Como no verso de Lupicínio, minha carreira começou de fracasso em fracasso; mas arrastada por minha teimosia, durou dez anos.
No dia da estréia, como repórter de campo, Hernani apresentou-me com estridência. Após rasgados elogios a meu velho pai, já afastado dos microfones, Hernani exaltou o “filho de peixe” e passou-me a palavra mas eu, acuado num canto quase invisível do vestiário da Vila Belmiro, como um Hortelino troca-letras, tropecei em minhas palavras, sob o testemunho de Pelé, Pepe, Zito, meus ídolos reverenciados nas arquibancadas, que estavam ali, uniformizados, prontos para entrar em campo. Inicialmente, eu deveria divulgar apenas a escalação dos times, mas resolvi decorar um discurso gongórico de abertura transformado em uma trágica pancada na cabeça dos ouvintes como um atentado.

Depois, copiando a voz exaltada dos radialistas esportivos que parecem proclamar a hecatombe universal, parti para a escalação do Botafogo: -“Alô-Alô, Alô-Alô amigos ouvintes. Eis o time do Botapogo de Ribeirão Freto”.

Troquei o fogo pelo pogo, e o Preto pelo Freto, com uma dicção impostada e impecável. Descobri, muito tempo depois, o nome desse erro de fala: spoonerismo.

Entalei. Engasguei. Emudeci. E o Hernani, diante do eloquente silêncio do “filho de peixe” (que não saiu aos seus e, portanto, degenerou) disse para minha imorredoura vergonha: -“Tenta de novo, Cascioninho !!!”.

E o Cascioninho entrou em campo sob vaias, risos e assobios zombeteiros dos torcedores municiados com seus rádios portáteis; eles me saudaram em “Latim” de baixo calão, cantochão de uma torcida gregoriana.

Tempos depois, aquele mesmo Cascioninho, numa noite de gala – jogo entre o Santos e Botafogo carioca (sempre um Botafogo) – conseguiu despencar dentro do mortal fosso de segurança que circundava o gramado do Maracanã, despertando orgasmos na multidão em êxtase que acompanhava, antes da queda, o cai-não-cai do repórter bambo sobre uma tábua estreita, frágil ponte improvisada entre as duas bordas do fosso. Aquele estrado tosco e trêmulo antecipava uma queda provável na expectativa
da galera. E o agraciado com o tombo fui eu.

Resgatado com vida (o espetáculo deve continuar!) suportei o microfone, as dores, os hematomas, e os três gols de um Botafogo, vencedor da partida.

Antes do início do jogo, e concluída a tarefa de me salvarem do fundo do fosso, Garrincha recebeu as chaves de um Sinca Chambord azul, resplandecente sob os refletores do Maracanã.

Esses episódios talvez nem sejam engraçados salvo para as testemunhas oculares e auditivas que me vaiaram e riram seu riso insolente e zombeteiro diante de minhas burrices e vexames.

Eu os revelo para os moços de agora entenderem que a vida é marcada por tombos e erros. Ninguém chega a lugar nenhum sem superar as metafóricas travas e tropeços da própria língua, os medos de simbólicos vestiários, os fossos abertos à espreita de cada passo, e o riso debochado de uma parcela da multidão torcendo contra.

Mas essas adversidades jamais podem nos impor derrotas definitivas e fatais, nas arenas cruentas ou incruentas onde a gente vence, a cada segundo, a luta incessante da vida.