
Sou de um tempo já longínquo em que as meninas brincavam de roda e eram plenas de graça. Seus corpos de criança guardavam a inocência das pequenas criaturas ainda não violentadas pela revelação prematura dos segredos e mistérios da vida.
No meio da noite eu seguia para um encontro ouvindo no som íntimo de meu carro uma antiga e romântica canção italiana dos anos dourados cujos versos diziam: “cada mulher deve ficar madura no devido e oportuno momento pois as meninas são flores em botão que somente devem abrir-se na época certa para não deixar atrás de si, prematuramente, os tempos melhores”.
Segui meu caminho, deixando mais um dia de combate desigual, fugindo das mazelas, das agruras do ofício, dos golpes que ferem como punhais, e dos gestos de mesquinhos dos quais ninguém escapa na árdua e doce convivência humana.
Cheguei à ilha isolada daquele encontro marcado, onde se reuniram familiares e amigos, náufragos de cada dia, sobreviventes exaustos do cotidiano.
De repente, no ambiente onde nos reunimos reencontrei o velho amigo cujo ofício ao longo de tantos anos é o de ser florista. Sobre as mesas, repousavam os arranjos de flores que ele, com arte e sensibilidade, tinha composto.
Cumpriu quase toda a sua vida a semear crisântemos, dálias, cravos, palmas, margaridas, orquídeas e jasmins, nos momentos de alegria e de dor, nas naves dos templos, nas bodas e nos velórios, á beira das sepulturas, nas solenidades e festas, nos ramalhetes e buquês que falam a linguagem simbólica das criaturas que amam.
Enquanto eu conversava com o velho amigo, veio-me à lembrança uma cantiga que quase não se entoa e servia de acalanto no lábio de mães enternecidas e se repetia no gorjeio das meninas de minha rua quando brincavam de roda: “o cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada”.
Perguntei ao velho florista para confessar com a fé de seu ofício se a rosa e o cravo eram rivais e antagônicos, ou amantes secretos na convivência inevitável das floriculturas. Ele lhes conhecia os segredos, na intimidade de uma vida vivida na companhia das flores, pois já me dissera que conversava com elas coisas que, no entanto, não me quis confidenciar.
Insisti, em vão, em saber os segredos que permaneceram ocultos. Ele nada me falou sobre as verdades íntimas das margaridas, das orquídeas e dos jasmins. Disse-me, apenas que lhe comovia a humildade das flores do campo misturando-se em cores e vivendo em suave harmonia. Perguntei-lhe então qual, dentre todas as flores, era a de sua maior bem-querença ao longo de meio século a lidar com elas.
Com os olhos úmidos, o velho florista respondeu sem conseguir esconder a emoção: “Sem dúvida nenhuma, é a rosa.
Ela tem o aroma da perfeição, a beleza mais comovente, a textura carnal. É a única flor que tem alma”. Então guardou um breve silêncio, e me disse: – “Mas também é a rosa a flor que mais me feriu, em toda a minha vida”.
Quando nos despedimos, contemplei os arranjos sobre as mesas. Havia rosas brotando de rendas feitas de pequenas flores brancas. Imaginei o amigo a compor, com gestos delicados e cuidadosos, os arranjos e, ainda assim, ferindo-se nos espinhos.
Mas no gesto do florista, de amor às rosas, elas se uniram para enfeitar a noite, perfumar as almas, apascentar os espíritos, fazer esquecer os espinhos e os punhais, e dar ânimo e coragem a todos ali, para sobreviver aos naufrágios de cada dia.



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