
Tendo os cronistas o dom da profecia, garanto aos amáveis leitores que um sobrevivente da mitologia, o heroico Narciso, cresceu e se multiplicou tanto a ponto de seus descendentes virem a ser praticamente uma unanimidade dentre os derradeiros exemplares da quase extinta espécie humana.
No elenco das figuras mitológicas, talvez seja ele a única entidade a atravessar os milênios e a permanecer atual, compondo multidões de Narcisos zanzando materializadas na humanidade cujo conceito, mais simples e enxuto, é o conjunto de todas as pessoas do mundo.
A natureza humana para surpresa de todos os narcisos tem dentro de si a animalidade. Claro, essa afirmação não é minha, afinal, sou um mero repetidor do pensamento de primatas limitados, transformado pela evolução das espécies num emburrecido e delirante cronista dominical.
A história do mito/lenda/fábula Narciso perpetuou-se não somente em alguns textos grafados em papiros, mas sobretudo nos versos de Ovídio, escritos na cidade romana de Sulmona onde o poeta nasceu pouco antes de Cristo, e não tão antes de aparecer, exatamente ali, o registro genealógico, naquele fim de mundo, do primeiro Cascione, mas este é um dado sem nenhuma importância.
Narciso, na pintura genial de Caravaggio, é visto em deslumbramento diante de sua imagem refletida num espelho d’água, afrontando a recomendação de um oráculo, feita a seus pais, de que ele teria uma longa vida se jamais contemplasse seu próprio rosto.
Assim, encantado e apaixonado por si mesmo, Narciso teria morrido à beira da poça d’água onde se mirava num alumbramento fatal.
Segundo as resenhas mitológicas e lendárias ele despertava paixão em homens e mulheres, mas a todos rejeitava por ser extremamente vaidoso, arrogante e orgulhoso.
Na visão filosófica desta pós-modernidade Samuel Dock descreve o narcisismo contemporâneo: “cada Narciso é o mais forte, o mais belo, o fora da lei, o não castrado, o ídolo, o primeiro e último, o capaz de domar o leão, aprisionar uma piton, domesticar a natureza, mas tudo isso reverterá contra ele mesmo”.
Sob o símbolo do narcisismo agigantam-se o egoísmo, o individualismo, e o egocentrismo. A fulgurância do umbigo, o êxtase diante do espelho, a consciência torta de enxergar o próprio semblante refletido com a cara de Deus formam, na alma e na mente desses seres únicos em si mesmos, uma lama também integrante da natureza humana, e que dela transborda incontida e se espalha, soterrando grande parte da humanidade.
Depois o barro seca e se torna um árido deserto de sentimentos nobres, sublimes, fraternos e amorosos, essenciais à condição humana, mas eles se atrofiam e definham em períodos trágicos da humanidade até o momento de todos os esforços para a reversão dessa monstruosidade não serem mais eficazes em face do tarde demais, pois os homens mutilam e encurtam o tempo, e o desencadeiam sobre si mesmos como um tsunami fatal a partir de um terremoto cujo epicentro situa-se na flatulência das entranhas de narcisos inchados de egos, arrogância, vaidade, demências, ódio ou indiferença, todos atuantes sobre os destinos da vida humana na face da Terra. O amor próprio leva à declaração diante do espelho: – “Eu me amo, eu me amo, eu me amo”.
Ilha isolada em arquipélagos dispersos, Narciso cuida de si, e se descuida do resto. É um ser antropofágico e faminto pronto para alimentar-se de sua própria carne, após devorar outros narcisos num lúgubre banquete, na sala universal dos espelhos quebrados, onde não sobrará ninguém para roer os ossos.



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