
Uma porta é uma abertura que serve para dar entrada e saída de um recinto, conforme uma das definições singelas do dicionário Houaiss.
Neste texto direi algumas palavras sobre a Porta do Inferno, descrita por Dante Alighieri, em sua ”Divina Comédia”. Quando Dante avistou o Inferno, leu uma inscrição sobre sua entrada, um registro da porta falando dela mesma:
“Por mim se vai à terra dolorida,
Por mim se vai onde é eterna a dor,
… Por mim se vai à gente vil perdida,
Deixai toda esperança, ó vós que entrais”
Como se vê, a Porta dantesca do Inferno, servia unicamente de entrada. Dali, ninguém conseguiria evadir-se e a hospedagem, à luz da eternidade, era vitalícia.
No inferno apenas os diabos poderiam entrar e sair, e suponho a inutilidade dessa porta, e de todas as outras existentes no universo, afinal os demônios penetram em toda parte, e vulneram até mesmo a blindagem das almas dos santos mais santos, os quais, segundo garantem os entendidos, pecam no mínimo sete vezes ao dia.
É difícil acreditar na instituição desse inferno convencional anunciado nas antigas aulas de religião, fontes de tantas verdades e algumas inverdades nas quais me induziram a crer, mas que, com a passagem dos tempos, vi revogadas ou substituídas por outras.
Antes de tornar-me um velho advogado íntimo de sentenças e tribunais, sempre duvidei da existência de culpas ou virtudes eternas.
Assim, não entendo como podem certos juízes da vida e da morte aceitar o arrependimento e a salvação de velhos pecadores que acabam transformados em santidades mas por outro lado impõem uma condenação eterna a quem não teve tempo de arrepender-se de suas culpas antes do segundo final.
Quem atravessa, para sempre, as portas do inferno? Quem merece o gozo permanente do céu?
Após a morte, há um prêmio permanente para uns, e uma pena infinita para outros?
Tenho minhas respeitosas dúvidas. Aqui mesmo, nesta terra microbiana, sumida entre galáxias e infinitos, existem pessoas que, em vida, já arderam em calor equivalente ao fogo dos infernos, enquanto outras, afortunadas, suportaram dores bem mais suaves e, portanto, de certo modo, o inferno e o céu são aqui.
Em minha medíocre limitação terrena, não compreendo um juízo divino impondo aos espíritos, de forma eterna e irreversível, a continuação infinita do fardo que eles já carregaram em sua dimensão humana…
Apesar das censuras que alguns dignos doutores de respeitáveis religiões me fazem, por terem eles, não apenas a sabedoria, mas também a intimidade que eu não desfruto com divindades e mistérios do além, ainda assim, repito: se a vida é breve, e o tempo para pecar é finito e exíguo, como impor uma eternidade desproporcional para o cumprimento de uma pena, ou para o gozo de uma recompensa ?
Estes pensamentos reincidem em mim, diante da leitura do escrito sobre a Porta do Inferno, do imenso Dante Alighieri, por meio da qual, na minha pobre e finita compreensão, é possível entrar e sair embora talvez para alguns a permanência seja mais duradoura. O Deus, no qual eu creio, não faria apenas portas de entrada.



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