
O motorista de aplicativo deu bom dia e logo lamentou: “O dia está borocoxô!” Concordei, e me calei. Eu também estava borocoxô. Não lembro daquele senhor ter dito mais nenhuma palavra, nem eu. Éramos coadjuvantes de um dia realmente assim. O meu, então, desde que começou o inverno e um vento atrevido me adotou.
Encolhido no banco de trás, pensei que os ventos, independente das estações, são um arsenal de surpresas e parece escolherem suas vítimas. Olhava no percurso os caminhantes e vi quem desafiasse seu rigor com trajes mínimos de quem curtia uma praia. E vi quem, como eu, caminhava acabrunhado dentro de agasalhos que só protegiam dos ventos que corriam avenida afora, mas pareciam não aquecer do que brotava de dentro.
O dia estava sim borocoxô. Nada melhor definia o tempo, o silêncio das ruas pouco habitadas, e meu estado de espírito, há dez dias ensimesmado, acabrunhado, taciturno e macambuzio. As palavras são o que se quer delas, e borocoxô me pareceu simplificar todos os sentidos naquela manhã de céu nublado, quando o assovio do vento na fresta da janela daquele carro ocupava o lugar do alarido de gente que parecia haver abduzido.
Abduzido estava eu nos últimos dias, incomodado desde a chegada dos ventos, e tentava, no acolhimento do meu próprio colo, me confortar ou ao menos me abrigar dos pensamentos. A palavra daquele senhor parecia resumir minha existência no trajeto que me determinara o destino.
Olhei de trás os cabelos brancos do motorista e confesso que isso me consolou um pouco, imaginei que dores encobririam aquelas mechas ralas e voltei a pensar nos ventos. Não só parece escolherem quem atazanar, como também se transmudam pelo sentimento dos alvos que atingem.
Lembrei de quando jovem adorava desafiá-los a bordo de uma lancha, uma moto e à beira do mar na gélida madrugada de uma promissora paixão que muitas vezes não resistia ao nascer do sol e, quando muito, ao seu poente.
Éramos naquele carro dois borocoxôs na mesma estrada, mas com diferentes caminhos, o mesmo céu nublado, mas não as mesmas amarguras.
Cada um, é certo, com seu próprio vento. O vento é mesmo particular, ainda que debaixo das mesmas nuvens.
Prestes a chegar ao meu destino, ainda pensava naquela única palavra que meu momentâneo companheiro pronunciara e me fizera incendiar o sentimento de o quanto o clima interfere na existência, ainda que as íntimas estações se rebelem com a evidência da alma.
As flores da primavera, o sol do verão, e mesmo o desfolhar do outono, são cenários em que protagonizamos a vida, sujeita à rebeldia dos ventos, que, ainda bem, nem sempre são tão borocoxôs.



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