
Sempre que lemos Isabel Allende – uma das joias da coroa da literatura latino-americana – somos trespassados pela mesma sensação: essa mulher sabe contar uma história como ninguém. Longa pétala de mar, romance histórico lançado em 2019, confirma essa percepção.
Partindo de 1938, o romance se inicia em meio à Guerra Civil Espanhola. A família Dalmau, opositora do regime ditatorial franquista, não encontra outra solução senão fugir enquanto o mundo ocidental observa paralisado a expansão do nazifascismo. Surge a oportunidade de imigrar para o Chile, um remoto país da América Latina. O famoso episódio do navio Winnipeg, capitaneado pelo então diplomata chileno – e futuro Prêmio Nobel – Pablo Neruda, é bem retratado no livro. A boa sorte dos Dalmau, entretanto, dura pouco: fugiram da ditadura de Franco para enfrentar a ditadura de Pinochet, largamente financiada pelos EUA para depor o presidente eleito Salvador Allende por meio de um golpe militar.
O livro se projeta de 1938 até 1994, traçando as desventuras da família Dalmau em uma quadra tão áspera da História. Sem embargo do romance parecer indicar como protagonista o destemido Victor, a grande personagem do livro é Roser, uma mulher indestrutível, a verdadeira heroína de toda a trama. História, ficção, ditaduras e amor se fundem num livro que tem tudo dentro dele.
Motivos para ler:
1- Isabel Allende mostrou altas credenciais já em seu romance de estreia: A casa dos espíritos (1982) é um mítico clássico latino-americano – sobre ele já escrevemos anos atrás. É a mais lida escritora de língua espanhola do mundo. Multipremiada, carrega nas veias as dores e o orgulho de sua família: é sobrinha de Salvador Allende e, após sua cruenta morte, teve de buscar asilo noutros países. Ela se define como “uma eterna estrangeira”;
2- O livro atravessa décadas difíceis da História. O forte fundo histórico moldou o destino dos personagens fictícios e reais que entram e saem de cena. Mas a vida acontece mesmo em meio às mais ruidosas turbulências. Até mesmo o amor. É com habilidade sobrenatural que Isabel tece as delicadezas, as incongruências e as ilogicidades do sentimento;
3– O leitor irá se deparar com um contexto político tormentoso: o alastramento do fascismo europeu, responsável pela eclosão da 2ª Guerra Mundial; as ambivalências da Guerra Fria; os golpes militares orquestrados no Cone Sul. Cabe aqui uma reflexão simples, porém poderosa: a democracia é mesmo um milagre. Quem perde uma eleição deve ir para casa e tentar na próxima; quem ganha, governa. É a regra de ouro. Quem não entende isso sequer deveria entrar no jogo democrático, porque democrata não é.



Grato pelo comentário que resume bem e nos traz curiosidade em ler o romance.
Chile é um país fantástico.
Bela dica. Nunca li Allende, e esse livro sera um belo inicio!
A escritora retrata episódios da historia de maneira simples e interessante.
Excelente coluna Dr. Rafael, apesar da sua coluna corporal não ser das melhores essa aqui é ouro. Li recentemente o Amante Japonês, fiquei com a mesma impressão do que foi retratado de forma brilhante pelo Dr., os períodos históricos mais sombrios acabam rendendo muito amor nas linha da Allende. Como ficou eternizado pelos Racionais “até no lixão nasce flor”, mas os fascistas otários que não aceitam o resultado de eleição podem se afogar no lodo e ficar de tornozeleira ou em qualquer calabouço para nunca mais sair.
Importante, necessário
Suas dicas são primorosas
Obrigado Rafa
Sempre vejo suas fotos com capas dos livros e ficava curiosa sobre sua avaliação, percepção ou comentários sobre a obra lida.
Adorei sua resenha sobre a incrível Allende.