
Quando a cabeça fica à mercê das tempestades da alma, não há como dormir bem. A alternativa para a insônia é o pesadelo. E vice-versa.
As turbulências do espírito são uma triste condição humana, e só a inocência impede os flagelos noturnos da falta de sono e dos sonhos maus. Nos versos de sua canção, a poeta identificou uma calma indizível no meio da noite na “paz de criança dormindo, e no abandono de flores se abrindo”.
Os adultos deste tempo dormem mal. Levam para a cama uma sobrecarga de apreensões, remorsos, ódios, saudades e medos, que se manifestam ruidosos, e em bando, no silêncio da madrugada.
Além disso, com a modernidade, fez-se a luz elétrica, e a claridade já não se esconde entre o crepúsculo e o amanhecer.
Homens e mulheres adotaram hábitos fatais invadindo a noite e revogando leis originais do corpo e do espírito. Afastaram-se do sono noturno que, ao menos, poderia lhes permitir, digamos, uma precária arrumação física e mental.
Mas, se dormir nas altas horas virou hábito, nem todos os notívagos podem compensar o sono usando a manhã.
Diante disso, a invenção do despertador foi inevitável.
Mas o despertador é intolerante e implacável.
Insensível e burro, mero cumpridor de uma programação suicida, o despertador ceifa o sono, mutila o sonho, arranca a criatura de seu insondável mistério e a põe subitamente em pé como um zumbi, um robô, um imbecil perdido no tempo e no espaço.
Esse chato instala, em quem acabou de ser despertado, o mal humor indissolúvel no resto do dia, e arma o seu espírito, trava-lhe a mente, subtrai sua inteligência. Transforma sua vítima em ameba neurastênica, o ser pensante em mero ente instintivo, o homem bom no delinqüente potencial.
Nesta semana fui ferido pelo despertador após um breve instante de sono, que me tinha livrado de um longo momento de insônia.
Não ouvi o seu primeiro toque, leve, respeitoso, terno e suave que, em verdade, serve apenas para despertar quem já acordou.
Também não percebi o segundo toque, mais incisivo e rigoroso, de um aparelho que começa a impacientar-se diante de quem teima em seguir dormindo.
Não escutei o terceiro, corneta de quartel, sirene de ambulância, alarme antiaéreo, bombardeio nos tímpanos, ultimatum impiedoso contra a alma enternecida em seu raro sonho bom.
O quarto toque é sempre o grito diante de quem o despertador não sabe se está apenas a dormir profundamente ou se sofreu um mal súbito, um desmaio, e, por isso, o chamado é feito em tom de grave alarme, não grosseiro, mas patético, como se o despertador quisesse saltar sobre meu corpo inerte e sacudi-lo, e dar-me tapas no rosto em gesto histérico e desesperado.
Veio, por fim, o quinto toque do despertador fora de si que uivava e gania como um cão diante de um dono morto, e reproduzia o som retumbante dos trovões, o estrondo da explosão atômica, a intensidade demolidora das trombetas de Jericó, o rugido da pororoca, a soma de todas buzinas, o sopro de vuvuzelas incontidas, o pingo reincidente da goteira no silêncio da noite, a voz do Galvão: é teeetraaa!, é teeeetraaaa! um alarido dos infernos, um soco na alma, um pontapé fatal no recôndito da dor.
Só acordei com esse toque extremo que já não é feito para despertar ninguém, mas para avisar aos parentes que o cidadão não está dormindo. Está morto.
Ressuscitei subitamente. E como um morto vivo, perdido no tempo e no espaço, tateando nas trevas, apertei, por engano, o controle da tv. Demorei para me encontrar e reencontrar o mundo.
Quando localizei o despertador já não precisei desligá-lo. Ele havia silenciado. Deve ter tido pena de mim e me deixado dormir. Mas aí já era tarde. Levantei-me e segui, meio sem rumo, à procura de uma nova manhã.



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