
Muitos seres humanos devem ser filhos de mães e pais dotados de um caráter absolutamente irrepreensível. Esses, por sua vez, certamente são descendentes de homens e mulheres perfeitamente habilitados a atirar a primeira pedra em qualquer um.
E tais apedrejadores, antigos e sem pecado, fazem parte de uma árvore genealógica de cujos ramos somente penderam frutos perfeitos.
Desde as origens mais remotas, essa estirpe imaculada é uma garantia, com certificado de qualidade, para a geração mais recente e atual, produto refinado de uma ascendência virtuosa, praticamente santificada.
Talvez nem seja preciso educar os seres contemporâneos descendentes dessa cepa de antepassados graças aos quais o time do mal ainda não logrou vencer a equipe do bem na face da Terra.
Eles estão imunizados contra a contaminação das moléstias transmissíveis pelas criaturas defeituosas deste mundo de Deus, feitas sem terem a sua imagem e semelhança e, portanto, dotadas de falhas de caráter, vícios de personalidade, desvios de comportamento e, com maior ou menor intensidade, são desonestos, antiéticos, egoístas, desalmados, impiedosos, imorais, indecentes.
Em resumo, os privilegiados pela Criação, nem sempre democrática e isonômica, estariam vacinados contra o contágio desses seres que passam a vida sem conseguir deixar de pecar por pensamentos, palavras e obras.
Talvez a grande maioria da humanidade não tenha o azar de nascer de árvores tortas plantadas em solo árido, ou de ser o fruto amargo que cai de maduro, ou apodrece no galho.
Ainda assim, no meio dessa maligna minoria desafortunada e destoante da obra da Criação, existe muita gente que se arrebenta e se desdobra para não errar tanto, pecar menos, e reduzir, o quanto pode, o exercício do mal.
Esses pecadores não exercem nem pregam aos seus descendentes a inalcançável santidade, mas os avisam que a prática do bem, da honestidade, da ética, da justiça, da solidariedade, da compreensão e do trabalho, é um caminho útil para fazer a vida ter algum sentido.
A vida pode ter algum sentido porque nesses seres imperfeitos a própria consciência é o seu juiz e o seu carrasco e, invariavelmente, ela é também o seu inferno que não precisa ser eterno porque basta-lhe ter a duração efêmera da própria vida.
Já os virtuosos, espécie de linhagem primorosa, podem ser juízes e carrascos dos outros, e andar armados com as pedras legitimadas pela ausência de seus pecados.
Esses, de estirpe classe A, não conhecem remorsos nem arrependimentos, mesmo quando acusam, julgam, condenam, apedrejam, e executam a pena, às vezes capital, porque neles a Criação não cometeu defeitos de fábrica, e eles não têm sentimento de culpa por estarem isentos de ter uma desnecessária consciência.
Por isso, não conhecem e não conhecerão as ardências do inferno, nem o calor de sua antessala, onde se acumulam as dores mais amenas do purgatório.
Já para os pobres impuros é difícil explicar aos seus descendentes, herdeiros do pecado original da árvore torta, terem eles o dever de buscar o caminho do bem à custa da luta, do trabalho, do heroísmo, de sofrerem injustiças, das pedras, do sangue, do suor e das lágrimas.
A maior dificuldade é essa, porque com os olhos úmidos de descrença e de ira santa os descendentes seguem esse caminho, mas desconfiam da santidade das boas estirpes, dos homens sem pecado, dos juízes e carrascos sempre prontos para atirar todas as pedras, que se fossem lançadas com justiça, e na direção certa, muitos espelhos seriam estilhaçados.



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