
É fim de tarde e a Place du Tertre começa a ficar vazia. Pintores desarmam cavaletes, guardam quadros, tintas e pinceis e aos poucos desaparecem nas estreitas vielas quase ocultas nos cantos da praça.
No inverno a noite surge de repente cobrindo o topo de Montmartre. Um enorme cão e uma criança correm diante de mim, cansado e indolente aqui neste banco de ferro de onde me ponho a observar as poucas pessoas ainda remanescentes ali.
As pequenas fachadas do casario em volta do largo traçam-lhe um perfil inconfundível e diante de suas janelas acesas, meus olhos perdem-se em demorada contemplação. O frio e a solidão estão do lado de fora.
Vem este homem, velho e pálido, caminhando lentamente e eu o acompanho com um sentimento de indiferença. Ele carrega uma tela onde fez um rosto de mulher de traços imprecisos, e no desenho vejo a luz de dois olhos grandes e tristes. Ambos, o velho e o rosto de crayon, seguem o seu caminho, para aonde?
Penso nesses olhos tristes que clamam, sofrem e suplicam em silêncio e onde lágrimas emergem devagar e escorrem lentamente, e não é preciso dizer nada.
O velho levou com ele aquela mulher sem nome, e tive preguiça de interromper-lhe o passo para saber se ele aceitaria vendê-la a mim. Mas se ele consentisse então eu lhe diria não estar interessado. Já não haveria encanto nem mistério no rosto de uma mulher disposta a vender-se a um sujeito desconhecido que passa.
Talvez tivesse sido útil correr à volta das árvores nuas, juntando-me à intimidade do cão e da criança antes de os dois se retirarem dali. Mas também eles partiram sem eu notar.
Sou o último a abandonar a praça. Meto-me em uma viela e entro num pequenino porão entre sombras e luzes baças. Ali dentro, de suas faces de porcelana, fitam-me os olhos gélidos de múltiplas bonecas de pano.
Uma mulher come um sanduíche como quem cumpre a penosa rotina de continuar vivendo. Percorro as prateleiras olhando para aqueles rostos muito brancos, perfis delicados, bocas e lábios verosímeis, pintados à mão. Todas as fisionomias se parecem, em suas caras antigas e tristes.
Escolho uma boneca e me dirijo à mulher. Ela pousa o resto do sanduíche sobre a mesa rústica, recebe o dinheiro, faz o embrulho, recolhe o sanduíche e continua a comer. Não me olhou uma única vez. Parecia ser uma mulher de pano, de cara pintada à mão.
Saio sem lhe dizer uma palavra e desço uma escadaria estreita carregando o embrulho. Nesse meu gesto, de compaixão ou de bravura, senti o alívio de ter libertado e devolvido à vida aquela desventurada boneca cuja alma se tinha desfeito nos porões de Montmartre.
Num breve instante parece que também minha alma me abandona. O desenho do rosto da triste mulher, as silhuetas das árvores nuas, as pedras do chão, a mulher de pano, as sombras imóveis no porão, o velho cansado, o cão vadio, e eu. Igualdade e simetria absolutas.



Deixe um comentário