
A s cidades têm histórias muito mais verdadeiras do que tudo que se fala do mundo. Pois preservam lembranças afetivas, e cada cidadão vive sua particular versão, fiel às cicatrizes incrustradas nos corpos edificados das ruas.
Encanta-me mergulhar cada vez mais nessas ricas histórias e nos rituais urbanos nos cantos que já percorri. Há muito tempo frequento mais determinados destinos do que desbravo novas paisagens. E sempre que volto a um lugar é como se abraçasse um amigo no reencontro, e às vezes é como se me entregasse lascivamente a um antigo caso de amor.
A Buenos Aires fui dezesseis vezes. A Lisboa uma dezena. E sempre estive nos mesmos lugares para viver sua intimidade como quem acaricia um rosto mergulhando no olhar. Meu ritual invariavelmente inclui bares, restaurantes ou cafés. Mas Barbarela, que conheci em 1975 na Corrientes, há muito já não existe na noite portenha. E O Elefante Branco morreu há tempos em Lisboa.
Os bares e casas do gênero são tão importantes quanto monumentos históricos. Há de se preservá-los para que não pereçam um dia na alma urbana. Em Montevidéu, mantem-se vivo O Café Brasilero desde 1877, em cuja mesa à beira da janela sentava-se regularmente Eduardo Galeano. No Chiado lisboeta A Brasileira ainda respira Fernando Pessoa. Em Paris o Le Deux Magots não se esqueceu de Sartre e Camus.
Mas outras casas se foram, ou estão prestes a virar só lembrança em Montevidéu como em qualquer outra cidade. Daí dois empresários uruguaios terem criado uma empresa de sugestivo nome: Não te tirem o bar da esquina. Objetivo é salvar e restaurar essas casas de tanta memória ainda viva.
Penso agora na importância de se preservar os bares porque Lisboa vive hoje um conflito. Corremos o risco de perder Ginjinha Sem Rival. No coração do Rossio, alfacinhas e turistas brindam à vida com um gole de ginjinha, tradicional licor digestivo. Não é exatamente um bar, mas há 135 anos serve no pequeno balcão muita história.
Uma empresa alemã comprou de um grupo russo o prédio para explorar o hotel na Rua das Portas de Santo Antão. E a nova proprietária quer se desfazer da família. Os descendentes, que sempre viveram disso, negam-se a sair, e se
baseiam no programa Lojas com História, legislação municipal que busca preservar 162 estabelecimentos.
Não me lembro de ter-me servido naquele balcão. Sempre que estive em Lisboa fui religiosamente cinquenta metros adiante, no A Ginjinha, no Largo de São Domingos. Lá sempre acomodei o gosto do bacalhau com um generoso gole do licor. É um ritual que vivo naquela terra, e para que essa verdadeira cerimônia se complete, ao pedir uma dose, sempre espero o balconista perguntar: “Com elas?”
É a senha para que eu, como tantos outros familiarizados com o ritual, responda: “Sim, com elas”. E ele então mergulha no pequeno copo duas frutinhas como cerejas, e depois de debulhar sua polpa, cuspo os caroços na calçada de mosaico português que há mais de cem anos acolhe caroços arremessados com tanto prazer e tanta história.



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