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O anjo é o tempo

21/06/2025 Vicente Cascione
O anjo é o tempo | Jornal da Orla

Era uma cantiga de acalanto e, mesmo quando menino, eu a ouvia com uma vago sentimento de tristeza. À beira do leito do filho enfermo, a voz terna de minha mãe falava de uma rua onde havia um bosque chamado solidão:

“Dentro dele, dentro dele mora um anjo, que roubou, que roubou meu coração”.
Angustiou-me, sempre, imaginar essa rua vazia, de portas e janelas fechadas, onde num bosque baldio, silencioso e ermo, um anjo errante conseguiu roubar de minha mãe, o coração.

Parecia ser apenas imaginação do menino. Mais tarde, no entanto, aprendi serem, a rua e o bosque, os inevitáveis caminhos por onde andamos ao longo da vida. E um salteador impiedoso o tempo irreversível; apropria-se dos corações humanos, retendo com ele os momentos vividos, deixando, somente, saudades e lembranças.

Quando criança, rejeitei sempre penetrar no bosque para conhecer o anjo perverso do triste acalanto, pois eu acreditava na eternidade da rua de minha infância, repleta dos companheiros que eu imaginava não haveriam de partir, um dia, de repente. Éramos nós, os moleques da minha rua, inocentes e anjos também, cujos singelos pecados eram o de roubar as frutas dos quintais e o sossego da vizinhança.

As ruas da minha infância eram ruidosas. As fachadas do casario sem medo e desconfiança sorriam em portas e janelas abertas. Ao amanhecer, era bom ver chegarem, aos poucos, além dos portões e das esquinas, os rostos dos amigos e a graça das meninas.

Vejo-os, agora, enquanto escrevo, cada qual no seu jeito, e é doce minha lembrança.

Mas um dia, inevitavelmente, a vida nos tangeu a entrar, um a um, na triste rua do acalanto, naquele bosque temível. E nos perdemos. E fomos feridos na tocaia do anjo de rapina de nossas inocências, liberdades, sonhos e tantas esperanças.

Ele apenas nos consentiu seguir levando as vestes sumárias de nossas lembranças.
Nesta tarde, ao passar por uma cidade antiga, revi uma rua como a de minha infância. Num beco quase escondido, a criançada em bandos brincava ruidosa e feliz.

Permaneci ali, num breve momento, a contemplar aquela fotografia viva. Retornei no tempo e incluí, no cenário do presente, com os olhos de minha alma, os velhos personagens imobilizados na imagem de meu passado.
Antes de partir, depois do breve tempo de minha contemplação comovida, tive o ímpeto de advertir as crianças para evitarem a rua e o bosque por onde, mais cedo ou mais tarde, haverão de passar.

Mas, exatamente porque inevitavelmente passarão, eu me calei. E fui embora sem olhar para trás.