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O malabarista

07/06/2025 Luiz Dias Guimarães
O malabarista | Jornal da Orla

Seu mundo são duas bolas movimentadas obstinadamente no ar. Faz tempo que volta-e-meia vejo esse malabarista concentrado em pleno Gonzaga, sem nunca falar com alguém ou pedir recompensa por seu singelo espetáculo.
O homem, aparentando uns 40 anos, demonstra não passar necessidades, veste-se como quem vai ao shopping.

Sua coreografia parece só a ele interessar. Dois passos para trás, outros dois, às vezes com pulo, à frente, e uma sequência de oito ou dez lançamentos no ar das duas bolas menores que sua mão.

Tenho dúvida se esse obstinado artista de rua busca aplausos. Sua vida parece ser mesmo confinada no mundo escuro dos seus malabares.

Rendo a ele o respeito que seu aparente caso requer.

Mas fico pensando que de alguma maneira espelha a minha vida, e a de tantos outros, malabaristas na linha invisível que separa mundos privados dos que desfilam à frente.

O segredo do malabarismo, atividade sensória-motora, requer concentração e controle visomotor que estimula a interação entre os membros.

É prática esportiva, às vezes artística, e tem até recordistas mundo afora.

Minha rotina não bate recordes nem tem tais predicados, talvez apenas mísera virtude de eu conseguir dar conta de tantos afazeres banais. Não desenvolvo musculatura além da que fortalece meu espírito e minha esperança. Mas fico diariamente dedicado a movimentar malabares para sobreviver.

Não sei o quanto esse anônimo homem interage com o que lhe resta de um mundo fora do seu minúsculo universo. Mas talvez o que lhe dê sentido à vida seja a plateia, como para mim. Sei que não me basto e escrevo para expelir ideias e sentimentos, na esperança de alguém alcançar com meu tosco desempenho.

Sou como todos, necessitado de me conectar com o que transcende meus limites, como possivelmente aquele moço, que discretamente lança bolinhas no ar. Aparentemente ele tem janelas fechadas, mas quem sabe seu malabares são apenas um convite para a luz entrar.