
Empunho minhas desesperanças contra um bando de embriagados de esperanças alcoólicas, e de outras tantas apoiadas em sem-razão. Nos rochedos de minha alma, hígida e sem alarde assenta-se uma discreta e sóbria esperança, cujos olhos observam a realidade onde vivo, enxergam o presente fugidio, guardam na retina a memória do tempo passado, e anteveem o futuro, sem ilusão de ótica, sem o filtro do sonho, da insensatez ou do delírio.
Minha espera e meu desespero, às vezes despercebidos, materializam-se, por exemplo, no gesto de escrever estes textos ao longo de uma vida inteira. Eles se fertilizam na terra bruta de mim mesmo e se entregam à colheita dos amáveis leitores como esse quase menino — Gabriel, de 16 anos — que me envia um email e repete — quem sabe? — o gesto da leitura de seus pais e dos avós, testemunhas destas crônicas desde a longínqua década de 1960.
Estas palavras, nunca ausentes, fizeram sempre a teimosia do escritor, de onde nasce, entre pedras e areias, a flor solitária de sua esperança. Mas ter esperança é um fardo; arqueia a alma e submete o passo à fadiga na direção do amanhã. Soam-me versos de um fado triste de Amália:
“Que estranha forma de vida Tem este meu coração. ……. Coração independente Coração que não comando Vive perdido entre a gente Teimosamente sangrando. ………… Pára, deixa de bater Se não sabes aonde vais, Por que teimas em correr? Eu não te acompanho mais.”
Brutal desencontro entre o grito dos sentimentos e o rotineiro silêncio das respostas. Estúpida correspondência entre a esperança e a frustração. Terrível hipocrisia no avesso das aparências. Trágicos os medos, as angústias, os pressentimentos e as verdades imaginadas e confirmadas. Como acompanhar meu coração correndo para muito além de mim? E ele me foge enquanto resisto e teimo em enfrentar o mundo-moinho.
Vi arrancadas as vidas dos pequeninos mortos no soluço convulsivo e na voz estremecida pelo choro desesperado do velho diplomata palestino, quase octogenário, clamando clemência aos monstros paralisados, fingidamente comovidos; espantalhos diante dos horrores; estátuas empertigadas em seus assentos inúteis e estéreis dessa ONU em sua impostura, covarde, interesseira, desavergonhada. Vi o apostólico, pregando verdades eternas ao povo de joelhos, digo, de quatro, diante dos bezerros de ouro. De minha parte, permanecem vivas e mortas minhas esperanças, porque elas são tão mortais e eternas quanto o contrassenso da trágica condição humana.



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